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segunda-feira, 8 de julho de 2013

O SEGREDO DO LIVRO - O DIA SEGUINTE.


Cap. 3 – O dia seguinte

                                     Bruno era um lindo rapaz, magro e alto, ao sorrir exibia seus dentes perfeitos. Fernando também era muito bonito, de uma beleza dócil; aguardaram ansiosamente o dia seguinte, era domingo, acordaram bem cedo, tomaram café da manhã e saíram ao encontro de seus amigos. Dessa vez quem faria o caminho alternativo eram os dois, pois haviam combinado de irem até a fazenda à procura do livro e com certeza queriam mais detalhe da história que Henrique e Augusto conheciam bem.
                                      Foram andando bem rápido e pouco se falou sobre o assunto. Conversaram sobre a escola, cantarolaram algumas músicas, assobiaram algumas vezes e fizeram silêncio em outras.  O caminho parecia mais longo... Encontraram no caminho dois senhores com vara de pescar que andavam mais vagarosamente e os passaram, deixando-os para trás, Mais adiante encontraram um homem e um menino montados a cavalo e por último avistaram meio distante do caminho que percorriam, um jovem casal, o rapaz levava uma enxada e a moça uma sacola, andavam tranquilamente, sem pressa. Do restante, avistaram muitos bois, alguns cachorros, passarinhos e viram também um tatu que logo se enfiou em um buraco no barranco. E por fim chegaram à fazenda. Seus amigos não estavam no lugar combinado, eles resolveram sentar e esperar, ficaram ali por alguns minutos e depois saíram a explorar o casarão abandonado. Tinha uma porta alta e estava encostada, a empurraram e entraram, tudo naquela casa estava deteriorado e muito sujo, algumas janelas haviam caído e parte do telhado também, o que permitia muita claridade nos cômodos, havia vários quartos e em alguns deles ainda tinham camas e cômodas velhas e quebradas. Sentiram um insuportável cheiro de carniça, provavelmente de algum bicho morto, deduziram eles. Na cozinha enorme, o fogão de lenha ainda estava lá, cheio de poeira e preto de carvão, uma mesa de madeira rústica e com um dos pés quebrado lhe fazia companhia.
                                   Os rapazes olhavam tudo muito atentamente. Um deles  encontrou um punhal no chão, estava sujo de sangue e ficaram assustados. Ao empurrarem uma porta que dava acesso a mais um cômodo do casarão, provavelmente uma dispensa, perceberam algo segurando, olharam pela fresta e viram um pé em decomposição. Empurraram mais a porta e puderam avistar um corpo e completamente horrorizados ameaçaram correr quando ouviram um barulho lá fora, imediatamente um dos meninos pegou o pé da mesa que estava solto e o outro se armou com o punhal, o barulho era cada vez maior e eles ficaram ali imóveis, com os olhos arregalados, ouviram passos e o ranger da porta da sala, os passos se distanciaram como se alguém fosse a um dos quartos, ouviram o barulho de um tilintar de ferro e depois os passos novamente se aproximando.
                                    - Fernando, Bruno, vocês estão por aí...- chamou Henrique.
                                    Entre o susto da voz e o alívio de ouvirem seus nomes, os dois soltaram suas armas e responderam com as pernas bambas.
                                     - Estamos aqui. – A voz saiu trêmula.
                                      Paulo Henrique e Paulo Augusto entraram na cozinha dando risada do susto que deram nos amigos. Os dois estavam transtornados. Mostraram o corpo que acabaram de encontrar , sem saber o que fazer decidiram enterrá-lo, tiveram medo que alguém pensasse  que foram eles que mataram o homem. Depois decidiram que jogariam o corpo no estábulo, pensaram melhor e decidiram deixá-lo ali mesmo, afinal, já fazia alguns dias que o defunto estava naquele cômodo, percebia-se pelo avançado estado de decomposição que se encontrava. Resolveram iniciar as escavações nos prováveis lugares que poderia estar o livro. Estavam todos muito tensos e com medo, mas queriam muito o livro e não quiseram mudar de plano. Durante as escavações o assunto foi o defunto, conversaram sobre  quem seria e o que estaria fazendo ali, seria uma morte por vingança, traição ou mesmo por herança, surgiam muitas histórias nas mentes criativas dos quatro amigos, entretanto  o clima foi ficando pesado e resolveram parar de falar sobre o morto que causava arrepio só de pensar que ele estava dentro do casarão. Resolveram então, para distrair, falar sobre a história que havia sido interrompida no dia anterior:
                                       - Quem vai continuar contando a história do coronel? – perguntou Bruno.
                                        - Acho melhor não falarmos desse assunto aqui. – Disse Fernando.
                                        - Para de ser medroso, agora que é legal contar, além do mais eu quero saber se o bebê no colo da mulher era mesmo o coronel.
                                         - Você está me chamando de medroso e quase borrou as calças ainda hoje, eu vi sua cara assustada quando encontramos o cadáver e começamos a ouvir  barulhos.
                                          - Você também ficou com medo Fernando, ficou branco que nem papel e ainda tremendo que nem vara verde, aliás, está com medo até agora. – Desafiou Bruno.
                                           - Pois eu não disse que não tinha medo, você que está dando uma de valentão.  Ah! Quer saber de uma coisa, querem contar a história que contem.
                                            - Terminaram a discussão? – Perguntou Henrique.- Posso começar?
                                            - Pode! – Disseram juntos Fernando e Bruno.
                                            - Pois bem, eu parei onde mesmo?
                                            - O coronel estava desconfiado que ele fosse filho da babá - Disse Fernando.
                                            - Da babá não “seu mula”, da patroa.- Corrigiu Augusto.
                                            - Ah é, verdade...
                                            - Pois bem – Continuou Henrique – quando sua tia disse o nome da mulher chique do retrato e a cidade onde ela morava, o coronel foi atrás, ele estava tão desesperado na sua solidão que nem pensou porque estava fazendo aquilo, simplesmente estava fazendo. Quando chegou à cidade, viu que era bem pequena e todos se conheciam e não demorou a dizerem a ele que a mulher havia se mudado com seu marido e a filha de dois anos, para lugar ignorado, estavam muito desesperados na época, pois a babá tinha roubado seu filho caçula, ainda um bebê e que isso havia ocorrido a mais ou menos uns dezoito anos, disseram a ele também que o casal era o mais rico da região. O rapaz ficou atordoado com tais informações, o que era uma desconfiança, naquele momento se tornara certeza.Ele era o filho roubado. Ele voltou para sua casa e não sabia onde procurar sua mãe, seu pai e sua irmã. Isso causou nele um grande sofrimento. Uns dias depois, ele começou a revirar uns baús velhos com roupas amarrotadas e encardidas, tinha esperança de encontrar mais alguma pista, encontrou um livro grosso, com capa de ouro, era uma espécie de caderno, pois dentro dele estava escrito à mão em vermelho com uma letra muito linda, dessas letras que se escreviam em pergaminhos. Ele sentou na cama e começou a ler o livro, era assustador. Tinha muitas receitas e dicas de bruxarias. É sério!
                                  - Bruno pode continuar cavando, não é para parar...
                                  - Eu estou cansado, faz um tempão que estamos cavando e aqui não tem nada, a minha enxada está cega, estou com sede, daqui a pouco é hora do almoço e estou ficando com fome. É melhor irmos embora.
                                    - Bruno você esqueceu de dizer: e estou com medo...- disse Henrique dando risada. - Eu trouxe água e também trouxe lanche de mortadela para todos nós e o Augusto trouxe refrigerante e cigarro...
                                      - Eu também trouxe cigarro, dois, peguei de meu pai, ele nem percebe, fuma que nem uma chaminé – Disse Fernando – E trouxe também um pouco de torta salgada, minha mãe mandou uma vasilha cheia, eu disse a ela que íamos fazer um passeio durante todo o dia.
                                       - Eu não trouxe nada. – Bruno falou meio sem graça – Nem pensei nisso.

                                        - Não tem problema, vamos fazer uma pausa e comer alguma coisa, me deu fome ouvir falar de torta e lanche de mortadela, afinal somos filhos de Deus, depois é melhor cavarmos perto do chiqueiro, aqui já cavamos muito. – Sugeriu Augusto.
                                        Durante a pausa para o lanche, não se contou mais a história, falaram de outras coisas, deram muitas risadas, estavam animados e felizes,esqueceram do defunto, fumaram o cigarro e resolveram tirar uma soneca. Depois, quando acordaram, estavam todos preguiçosos, ninguém quis mais cavar, já passava das três da tarde e resolveram ir para casa, combinaram de ligar para a polícia e falar do corpo que estava no casarão e quando  voltassem  no domingo seguinte, não teria mais defunto lá, entretanto Paulo Henrique e Paulo Augusto tiveram que prometer para os dois amigos inseparáveis que durante a semana contariam mais um pedaço da história do coronel. E assim foram embora, cada um para sua casa naquele fim de tarde de domingo.




Cap. 4 – A Semana

                                          Durante toda a semana, os amigos pouco falaram sobre o assunto, não que faltasse curiosidade da parte do Fernando e do Bruno, foi uma semana de muitas provas e eles precisavam estudar nos intervalos de uma aula e outra e não saíram muito de casa, E ainda tinha o assunto do morto, que souberam que a polícia havia ido até lá e retirado o defunto, mas não conseguiram saber quem era, foi enterrado como indigente. O punhal ficou com Bruno, que exibia para todo mundo aquele belo objeto de prata. Na sexta –feira tiveram mais tempo livres e se reuniram no recreio com mais alguns colegas que acabaram participando da conversa, meio sem saber muito o que se passava, mas acharam interessante o bate-papo. Esses colegas eram: Regiane, Verônica, Edson, Lindomar e Marcos.
                                           - Por favor, me diga o que foi que o coronel fez com o livro que ele achou? Perguntou Bruno dirigindo-se a Henrique.
                                            - Ele fez bruxaria para encontrar seus pais... – Disse Augusto que estava do lado dos dois – Ele matou um gato preto num ritual satânico...
                                             - Ele fez essa maldade com o pobre do gatinho? – perguntou Regiane, que estava ouvindo.
                                              - Fez, e algo muito medonho lhe apareceu, ele quase morreu de medo, reconheceu que era o próprio “cão chupando manga” e pediu a ele uma criança. O rapaz saiu correndo gritando, entrou no seu casebre e fechou-o, naquela noite ele não pregou os olhos, tão desesperado que ficou, pensou em mil coisas. Quando amanheceu o coronel pôs logo em prática uma ideia que teve, foi à cidade e comprou um lindo e gorducho leitãozinho rosado, os porcos dele estavam todos grandes e não serviam; levou-o para casa, matou e tirou algumas partes deixando deitado numa caixa. À noite o enterrou e o coisa ruim não apareceu novamente e passado uma semana o coronel já havia esquecido o ocorrido, percebeu que tudo era uma besteira e resolveu tocar sua vida adiante,
                                                 - Nossa! Que história sinistra, cara – Falou Lindomar – E o que aconteceu com ele depois?
                                                 - Ele resolveu voltar à cidade de seus pais verdadeiros e procurar alguma pista, nem que fosse para chegar e falar com cada morador, alguém deveria saber para onde foram. Quando chegou lá, parou em uma pousada para descansar. Antes de subir ao quarto, conversou com o senhor de idade que o atendeu na recepção, tudo indicava que aquela casa era dele e ao comentar a que estava ali, o velho soltou uma divertida gargalhada. Sem entender, o coronel ficou olhando para a cara dele, sério e ele disse alegremente – “Meu rapaz, você tem mesmo sorte, pois eu não via o compadre há quase dezoito anos e olha ele ali” – e apontou para um senhor de meia idade sentado em uma das poltronas da sala, lendo jornal - " você se parece muito com ele, aliás, é ele por escrito quando mais jovem, se o filho dele não tivesse morrido eu até diria que você é o filho dele"... concluiu.
                                                 - Pessoal, vamos, bateu o sinal para entrar na sala de aula. – chamou o servente da escola.
                                                 Todos estavam tão compenetrados ouvindo Augusto que nem deram conta do sinal. Subiram todos correndo para suas respectivas classes.
                                                  Na saída da escola lá estavam todos reunidos querendo saber o que aconteceu. Logo rodearam os dois Paulos que conheciam melhor a história, Paulo Henrique impaciente falou:
                                                   - Eu vou resumir essa história, poderia passar a vida inteira contando, mas já cansei. O coronel encontrou seu pai que o reconheceu, sua mãe já havia falecido e sua irmã estava no exterior, ele ficou muito rico com a herança que recebeu, comprou a melhor fazenda da cidade onde ele morava e casou-se com a moça da janela, não tiveram filhos, pois ela tinha problemas e perdia a bebê quando engravidava...
 
                                                     - Espera aí, assim não tem graça. – Corrigiu Bruno – Eu quero saber os detalhes, por exemplo, como foi o encontro dele com seu pai e como foi o encontro dele já rico com a moça da janela...
                                                      - Quem é essa moça da janela, eu quero saber? – Perguntou uma das meninas.
                                                       - Eu também quero saber – Disse a outra amiga.
                                                       - Dã!... E você acha que nós sabemos os detalhes... Nós estávamos lá, por acaso?- Disse Augusto.
                                                        - Pois saiba que eu estava, Bruno, eu inclusive segurava o lencinho para enxugar as lágrimas do coronel quando se encontrou com o pai...- Ironizou Henrique.- É sério...
                                                          Todos riram...
                                                          - E vocês que pegaram o bonde andando, um dia eu conto o começo da história, agora eu quero ir para a casa descansar, vamos Augusto.
                                                           - Domingo nós vamos voltar lá na fazenda, amanhã a gente combina  – Disse Augusto.
                                                            Todos se despediram e foram embora.


(continua...)
Raquel Delvaje

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O SEGREDO DO LIVRO

     

Cap. 1  o velório

         Estava chovendo quando ele chegou ao velório. A sala era grande, mas naquele momento se tornara pequena diante da multidão que se aglomerava próxima aos cinco caixões. Quando Fernando Prado entrou, fechando o guarda chuva preto e molhando o chão, alguns olhares se voltaram a ele e dele saiu um aceno meio curto e sem graça, alguns abanaram a cabeça num gesto de cumprimento, outros ignoraram e viraram o rosto. Sentou-se numa beira de um banco que acabara de desocupar, próximo à porta, faltava-lhe coragem para ir até os caixões. Foi com muita luta que conseguiu chegar ali. Os choros e gemidos eram constantes, sentia alguns olhares mirando-o,  como se quisessem saber como ele se sentia. – “Estou muito mal! – Tinha vontade de gritar – Eram meus amigos...”. Mas não gritava, não dizia nada. Pensava somente. Lembrava de seus amigos e de tantos anos de convivência. Às vezes tinha a sensação de estar num pesadelo.
          A mãe de um deles aproximou-se, uma mulher gorda de cabelos claros, tinha um olhar cansado, parecia ter envelhecido em poucas horas mais do que envelhecera nos últimos anos,  Fernando  se levantou e a abraçou e como estava reprimindo suas emoções, naquele momento chorou. Percebeu que não estava sonhando, o choro foi alto e compulsivo.
          A chuva continuou bem fininha e começou a esfriar.  Durante todo o velório a mãe do Paulo Henrique esteve ao lado do companheiro de seu filho, que estava tão inconsolável quanto ela, outros tantos se aproximaram com suas condolências. O enterro aconteceu com muita tristeza e depois Fernando foi para casa, mergulhado nas lembranças.



Cap. 2 - Os tempos Áureos

       Tinham entre 15 e 16 anos, Fernando Prado e Bruno Veigas se conheceram no primeiro dia de aula e descobriram que moravam na mesma rua, a partir daí nunca mais se separaram. Paulo Augusto e Paulo Henrique, eles conheceram no ano seguinte quando mudaram de escola. Ficaram amigos inseparáveis e se encontravam também aos finais de semana.
             Os dois Paulos moravam em um bairro mais distante e vinham de ônibus para a casa dos amigos, até que um deles descobriu um caminho alternativo, passava-se pela porteira de uma fazenda abandonada e cortavam caminho por dentro dela, depois pulavam uma cerca, andavam por uma trilha e atravessavam por um riacho raso, subiam um pequeno morro que também tinha uma trilha já marcada e passavam por um pasto, pulavam outra cerca de arame farpado chegando à ponta do bairro onde seus amigos já o esperavam. Eles vinham todos os finais de semana e se divertiam durante todo o dia. A caminhada era longa, os rapazes chegavam ofegantes, porém ávidos de aventura. Sempre havia uma novidade sobre a fazenda que muitos evitavam passar, mas os dois gostavam do desafio e de demonstrar coragem em trilhar aquele caminho. Um dia  Paulo Henrique veio com uma história, foi bem assim:
                - Amanhã eu e o Augusto vamos procurar o tal livro...
                - Que livro?- perguntou Fernando.
                - Você não sabe do livro?- Indagou Bruno. – Aquele que está enterrado na fazenda...
                - Isso é tudo mentira. É história pra boi dormir, eu não acredito em nada disso...
                - Pois é verdade Fernando, a minha avó trabalhou na fazenda quando era menina e ela conta que o Coronel Anercides quando criança era muito pobre, andava descalço e com roupas surradas e muitas vezes não tinha o que comer. Seus pais eram muito velhos e sujos, sua mãe vivia com um cigarro de palha na boca e xingava as poucas pessoas que se atreviam a passar pela trilha que dava acesso ao seu casebre. Nenhuma das crianças tinha amizade com ele, todas tinham medo, pois havia uma lenda que a velha era bruxa e assassina, diziam que ela matava crianças para seus rituais malignos e que jogava o resto para os porcos. É sério! – contou animadamente Henrique.
                 - Eu já conheço todo esse blá blá blá! Inclusive essa lenda que ela matava crianças surgiu porque cinco meninos se perderam e nunca mais foram encontrados. Aí outra coisa que eu não acredito...
                  - E se eu disser para você que minha bisavó, já falecida, conhecia a família dos meninos desaparecidos? Disse Augusto com um ar desafiador.
                  - Verdade? Perguntou Bruno.
                  - Mesmo assim eu vou continuar não acreditando – Respondeu o incrédulo.
                  - Fernando você é cabeça dura... A minha bisavó contava que quatro das crianças eram irmãos e o outro era um primo que veio de outra cidade. Eles começaram brincando no terreiro de casa e depois resolveram mostrar onde a bruxa morava. Com certeza chegaram muito perto e a velha os pegou. A cidade inteira procurou por eles. Primeiro procuraram no rio, que estava muito cheio na época, procuraram nos matos, vieram cachorros farejar, nunca acharam nada...
                   - E porque acham que foi ela?
                   - Um velho que estava passando na trilha disse ter visto os moleques por lá, só que o homem bebia muito, então nunca houve a certeza. O povo invadiu o casebre e colocou fogo em tudo, inclusive nos porcos. Iam queimar a velha viva, só que o delegado chegou e proibiu porque não havia nenhuma prova. E ainda falou, minha bisavó contava, que se queimassem a mulher e depois as crianças aparecessem como que ficaria a consciência de cada um. Depois disso as pessoas foram saindo e ficaram na esperança dos meninos estarem perdidos no mato. Só que nunca mais foram vistos.
                    - Augusto, me diz uma coisa – perguntou Bruno com muito interesse - Se depois os meninos nunca mais foram vistos porque não investigaram melhor a velha?
                     - Isso eu já não sei. Eu sei que depois de algum tempo acharam o corpo de outra menina boiando no rio, numa época de chuva, ela não era da cidade e nem das redondezas, nunca descobriram quem era, então o delegado concluiu que ela viera boiando de muito longe e que fato igual poderia ter ocorrido com os meninos, que eles poderiam ter se afogado e sido levados pela correnteza, igualmente ao caso da menina, era uma época de muita chuva quando houve o fatídico desaparecimento, alguns se convenceram disso, outros não. O fato é que com isso deu se encerrado o caso.
                       - É, mas a menina também poderia ter sido morta pela bruxa, que deve tê-la raptado de algum lugar...
                        - Ué Fernando, não é você que tanto não acredita?- Perguntou todos quase ao mesmo tempo e dando risadas.
                        - Vocês ficam com essas histórias da carochinha e eu acabo me empolgando, só isso...
                         - Não é da carochinha não, Fernando, o pior é o que vem depois. Dizem que todos que participaram colocando fogo no casebre da mãe do Coronel morreram de mortes trágicas, não muito tempo depois. Ela jogou uma praga gritando que todos os incendiários iam se arrepender, estava amaldiçoando cada um e que não escaparia ninguém. Depois de alguns meses rolou uma pedra enorme de um barranco e matou três homens que almoçavam na sombra. Surpresa! Os três haviam participado do incêndio. Nem todos acreditaram, acharam que foi uma coincidência. Passado mais um ano, duas mulheres estavam lavando roupa no riacho e veio uma onça e matou-as, outras quatro que estavam próximas, a onça nem olhou. Aí a população começou a ficar com medo, especialmente os que estavam lá, assim como minha bisavó, só que ela não ajudou por fogo como muitos outros. No final de sete anos haviam morrido os exatos doze que participaram ativamente. Reclamaram para o delegado, para o padre e para algumas autoridades que diziam que era tudo fantasia daquele povo supersticioso.
                           - Como morreram os outros? – Perguntou Bruno.
                           - Um caiu do cavalo. Dois morreram de doença, outro foi assassinado pela esposa e os outros dois morreram afogados.
                            - Esta conta está errada, você disse que eram doze e contou a morte de onze. – Falou Paulo Henrique que ouvia tudo atentamente e numerava os casos.
                             - Não, de jeito nenhum, eu disse doze e numerei doze, você não sabe contar direito – Disse Paulo Augusto irritado.
                              - Não, o Henrique está certo, você citou onze, faltou um.- Bruno apoia o amigo. – Você disse que três morreram no barranco, duas mulheres a onça matou, um caiu do cavalo, dois morreram de doença, um foi assassinado pela esposa e dois morreram afogados. Não foi Fernando?
                               - Sei lá, eu não estava contando, que diferença faz, já morreu mesmo...
                               - Eu quero saber do que o outro morreu – Disse Bruno curioso.
                               - Você tem razão, tem mais um – Falou pensativo Augusto, com jeito de quem tenta lembrar. - O que foi mesmo o outro caso?...Ah! Lembrei! Esse foi o pior caso, pois essa mulher sabia que havia participado do incêndio, estava aterrorizada após a sequência de mortes, qualquer coisinha a deixava em pânico: barulho, movimento... Sempre achando que a morte a espreitava. Nem saía de casa, estava doente de tanto pavor. Até que um dia uma cobra entrou em sua cozinha e a picou e ela caiu durinha quando sentiu a picada, seu marido que estava do lado matou a cobra e verificou em seguida que não era venenosa, ela morreu de medo. Após todos esses acontecimentos, ninguém ousava mais mexer com a velha, ninguém passava mais pelo caminho. Poucos a viam. E muito raramente.
                              - E o que foi que aconteceu depois, seu sabe tudo?
                              - Olha o Fernando interessado pelas histórias da carochinha... – Disse Bruno rindo...
                               - Eu conto o que aconteceu – Interrompeu Henrique - Quando a velha morreu de tuberculose, foi enterrada no fundo do quintal pelo Coronel, porém, seu pai já havia morrido alguns anos antes e sido  enterrado no cemitério, pois ele tinha alguns conhecidos da roça que providenciaram seu enterro, mas quando sua mãe morreu, eles estavam sozinhos e abandonados naquele lugar esquisito,  haviam reconstruído o casebre e recuperado alguns porcos e algumas pequenas plantações, mas era tudo muito miserável.  Após ficar sozinho, o Coronel, então um menino de seus dezessete ou dezoito anos, passou a ir mais vezes à cidade, mas era muito mal visto por todos, ninguém queria se aproximar dele, dizem que ele começou a vender alguns porcos no mercado, entretanto, um dia algumas senhoras disseram que não comprariam mais carne ali se  continuassem a aceitar os porcos do rapaz, que consideravam um herege  e como eram freguesas ricas e com muitas amizades na cidade, preferiram não contrariá-las e o pobre coronel voltou para o seu casebre com o porco. No caminho, viu uma bela jovem na janela de sua casa e se apaixonou, ela por sua vez não o olhou, ele estava mal vestido e sujo e com um porco nas costas. Apesar de toda vida ele ter sido humilhado, nesse dia  sentiu muito mais, naquele momento conhecera o desprezo da jovem que tanto o atraiu. Não era feio, estava maltrapilho e cheirando a porco, dificilmente atrairia algum olhar de qualquer moça. Ao chegar à sua casa ele chorou muito, a solidão estava sempre presente, passou toda noite acordado pensando em sua vida como era desgraçada, pensando no belo par de olhos da jovem na janela e também das senhoras que o humilharam. Foi quando ele, remexendo nas pouquíssimas coisas de sua mãe, achou umas roupinhas de criança e nelas enrolado um retrato de uma mulher de boa aparência com um bebê no colo, exatamente com uma das roupinhas. Ele ficou intrigado com aquilo, quem seria a mulher e a criança?...
                                    - E quem era a mulher e a criança?- Perguntaram os três rapazes simultaneamente.
                                    - Calma que eu digo. Ele passou muitos dias intrigado com a foto, pensava ser ele a criança, mas porque sua mãe nunca lhe mostrara essa foto, e a mulher quem seria? Ele resolveu procurar uma velha tia que o visitava quando criança, pois sabia onde ela morava, sua mãe sempre dizia. Quando foi atrás dela, ele se sentiu um caipira desajeitado, a casa dela era humilde, porém, limpa e arrumada. Ela o recebeu muito bem, ficou sabendo da morte de sua irmã e ficou triste. Ele quis saber a respeito da foto e tirou-a do bolso. Ela ficou pálida ao ver o retrato e as roupas. Conhecera aquela mulher, sua irmã havia sido babá de uma primeira filha que ela tinha, e agora vendo as roupinhas que tinha visto vestir seu sobrinho, percebeu que diferente de como ela havia contado que adotara o menino, passou-lhe um calafrio, teria sua irmã roubado o menino de sua patroa?
                                   - Então, ela havia roubado o bebê? – Perguntou Bruno, sempre o mais curioso.

                                    - Quer saber de uma coisa, eu cansei dessa história, outro dia eu termino de contar.Vamos jogar bola...- Sugeriu Henrique já correndo para o campo.
                                      Todos o seguiram correndo e já chutando a bola para o campinho improvisado e de pouco gramado.

 (CONTINUA...)

Raquel Delvaje