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domingo, 9 de setembro de 2012

MISTÉRIO XXII - O SINISTRO CASO DA LÍNGUA DE BOI


                        






                            Próximo à cidade de São Luiz no Maranhão, no ano de 1920, havia um homem muito mesquinho. Trabalhador na área rural, costumava ganhar o dinheiro e guardar embaixo do colchão, muito pouco utilizava para as despesas, deixando sua família passar fome. Ele gostava muito de comer língua de boi e quando comprava, trazia e mandava Izolda preparar com bastante caldo, sentava-se à mesa e comia até o último pedaço, deixando para a esposa e o filho, o caldo. Ela colocava farinha de mandioca e dava para o menino que “lambia os beiços”.  Ubiraci cresceu vendo o pai comendo e não dando para ele, ficava com os olhos compridos de vontade de comer da língua, sua mãe começou a pedir um pedaço enquanto o guloso marido se abarrotava com o aperitivo.
                           - Dê um pedacinho para o menino, ele não se aguenta de vontade, reclamava a pobre mulher...
                             O homem resmungava mal humorado e tirava uma pequena lasquinha que o menino comia com desespero. Logo via terminado e passava a olhar o pai novamente, mas esse já não se compadecia do pobre faminto e restava para Ubiraci o caldo com a farinha.
                             Os anos se passaram e nada mudava naquele cerrado, nem as maneiras rudes de Joselino, que ficava cada vez mais agressivo e cruel. Costumava bater no filho por nenhum motivo, bastava chegar cansado e nervoso e descontava no franzino moleque que era pequeno e amarelo. Izolda tinha um dó danado, mas nada podia fazer, abaixava a cabeça e ficava contida em sua dor, depois passava a mão na cabeça do menino que já nem chorava de tão acostumado com as surras.
                               Quando o pequeno estava com nove anos, sua vontade de comer língua era desmedida, pois nunca se saciava com aquela minúscula porção que seu pai lhe dava e ficava imaginando um jeito de poder comer à vontade. Um dia Joselino chegou com uma língua imensa, quando ele trazia a iguaria, voltava para a casa mais feliz e era uma das vezes que o moleque não apanhava. Todo contente mandou a esposa preparar para o almoço do dia seguinte e que mandasse em sua marmita, permitiu que tirasse a pequena porção do menino.
                                 Ao amanhecer o dia, Ubiraci pegou o cavalo e começou a dar voltas à casa , circulava da estrada de terra até o portão e até à porta da entrada, passou a manhã inteira fazendo isso. Quando chegou o horário do almoço sua mãe mandou que ele levasse a marmita para o pai. No meio do caminho abriu a vasilha e comeu a língua. Quando Joselino percebeu que no seu almoço só tinha feijão e farinha ficou irado e perguntou  da mistura. O filho disse que havia chegado uns homens na casa e que sua mãe preparou  o cozido para eles. Quando ao final da tarde o marido chegou à casa, soltava fogo pelas ventas  e foi logo indagando quem eram os homens que estiveram  lá em sua ausência. A mulher não soube explicar e ele nervoso e desconfiado bateu nela, o menino ficou quieto e nada falou.
                                   Passado uma semana, novamente o homem compra língua e pede para fazer e mandar no almoço, o menino monta no cavalo e repete as pegadas, come a mistura e diz ao pai que os homens estiveram novamente em sua casa e que sua mãe mandou que ele esperasse do lado de fora. Joselino volta bravo para casa e constata novamente as pegadas, mas sua mulher nega que alguém esteve ali e ele a espanca, acreditando estar sendo enganado. Para comprovar sua dúvida ele compra uma nova língua e manda a mulher preparar novamente, dessa vez ele pensou, se essa mulher der a minha mistura para outro homem eu a mato. E foi trabalhar. Ubiraci que estava gostando de comer sem levar a culpa, novamente repete a façanha, deixa pegadas de cavalo próximo à casa e come a iguaria da marmita. Quando Joselino recebe o almoço só com feijão e farinha, monta no cavalo e vai para casa feito doido, deixando o menino para trás. Chegando, ele surra a mulher com um pedaço de toco de lenha, batendo nela a ponto de querer matá-la, nisso o menino está entrando pela porta e vê a mãe toda ensanguentada caída ao chão. Ela sabia que era o filho que comia a língua, mas não dizia nada para que o pai não o espancasse, mas diante daquele momento que ela viu que seu marido a mataria por ciúme, pediu para que Ubiraci dissesse a verdade. O menino olhou com olhar comprido e  respondeu:
                              - Mãinha, não sei de nada não...
                              Com essa fala do menino, Joselino que ainda tinha um pouco de esperança que sua mulher não estivesse traindo-o, ficou desolado e partiu para cima de Izolda com o pedaço de pau e deu nas costas e cabeça dela. A mulher já quase desfalecida implora  para o menino dizer a verdade e ele só a olha sem nada responder. Num ímpeto de ódio ela fixa os olhos  no filho e o amaldiçoa dizendo:
                       - Pelo diabo que existe nessa terra eu condeno você seu mentiroso e guloso a comer língua e nunca se sentir saciado, nenhuma língua dessa terra vai lhe saciar.
                                Disse isso e caiu desfalecida. Joselino pensando que havia matado a mulher, pegou seu cavalo e saiu pelo mundo. O menino vendo o pai ir embora e a mãe ali como morta, pegou outro cavalo e saiu também, sem destino.
                                  Dez anos se passaram, Izolda se arrasta pelo chão cuidando da casa. Ficou aleijada das pernas , com a pancada nas costas quebrou a coluna. Vive numa miséria de dar dó, vizinhos de fazendas próximas a ajudam com alguma coisa, um leva uma farinha, outro leva um leite, outro leva uma carne seca e assim ela vai vivendo. Preferia ter morrido naquele dia, mas o destino não quis e agora vive esperando a morte.
                                    Certo dia, ao receber a visita de uma comadre que veio lhe trazer farinha e sal, numa conversa, a mulher lhe contou que estava havendo um grande infortúnio e que os bois estavam aparecendo mortos sem língua. Um roceiro havia visto um monstro rodeando os pastos, havia dado a descrição de um ser de outro mundo, horrível, com couro duro e seco parecendo couro de cobra morta. Sua cabeça imensa mostrando o crânio e os olhos saltados injetados de sangue. O homem que presenciou o bicho maldito ficou doido, de tanto medo que passou, agora não falava coisa com coisa. Mas o fato é que existindo ou não a tal criatura, os bois estavam morrendo. Izolda ouviu a narrativa muito assustada, pois vivia sozinha naquela casa no meio do nada. Arrastava-se, pois suas pernas estavam atrofiadas. A vizinha procurou acalmá-la, mandando fechar a porta assim que começasse a escurecer e que ficasse dentro da casa e não saísse por nada, nem que ouvisse barulhos. Disse também que até então só sabiam de ataques a bois, por isso ela não tinha que se preocupar. E todos  estavam esperando os homens chegarem da empreitada de trabalho para formar um mutirão e ir atrás da criatura.
                             Quando a vizinha foi embora, Izolda ficou pensativa. Tinha medo, mas decidiu que passaria aquela noite no pasto vizinho, precisava tirar uma dúvida que a estava atormentado. Ao escurecer, a mulher pegou um cobertor fino e saiu se arrastando por entre o cerrado. Feria-se nos gravetos e pedras, mas continuava sua jornada. Ao chegar ao pasto ajeitou o cobertor e deitou-se próxima a uns bois. Ficou ali pronta para passar a noite. Quando já era de madrugada, ela acordou com barulhos e olhou na noite escura e quente e viu um vulto por entre os animais. Não teve dúvida que era a criatura, havia derrubado um boi e estava abaixado comendo sua língua quando a mulher gritou chamando sua atenção.
                            - Ei! O que você está fazendo?
                            A criatura parou e olhou aquela mulher que até então ele não havia visto, arregalou os olhos que já eram grandes e injetados de sangue, ficou olhando para ela parado. Deu um pavor tão grande na mulher que tentou se arrastar e não conseguiu, pois estava paralisada pelo medo, nunca tinha visto nada tão horrível, o bicho era seco e assustador. Sua boca estava com a língua do boi pendurada e ensanguentada. Ele mastigando aquela carne veio em direção à mulher que pôs a mão na cabeça e começou a gritar diante do horror. O bicho chegou perto dela e abaixou-se e deitou em suas pernas encolhido, mas ainda mastigando a língua do boi. Izolda atordoada com o cheiro fétido e o pavor  de ver aquele monstro deitado em suas pernas, ficou paralisada por um tempo, não podia se mexer pois ele estava quietinho deitado em seu colo. Ela o ouviu soluçar baixinho. Ele ergueu a cabeça e a olhou e em seus olhos desciam lágrimas. Izolda compreendeu naquele momento. Os olhos dela também lacrimejaram e ela disse, passando a mão em sua cabeça descarnada:
                               - Filho, eu lhe perdoo.
                                Ao amanhecer o dia, a mulher estava entrando pela porta da cozinha, sendo levado no colo por um rapaz lindo, robusto e alto. Nunca mais ninguém soube de algum boi que tenha morrido nas redondezas sem a língua.

 
                 


 
            

MISTÉRIO XXI - O SINISTRO CASO DOS IRMÃOS GÊMEOS






                                     O Chevette 76 descia pela estrada que fazia divisa de Minas Gerais e Bahia. O ano era 1982, o motorista estava cansado e ao seu lado dormia sua mulher e no banco de trás suas duas filhas. A noite estava escura e já era madrugada. Frederico pensou em parar o carro para descansar um pouco, mas precisava de um lugar seguro, seus olhos estavam pesados quando ao fazer uma curva viu um bizarro homem pedindo carona, ele fixou os olhos naquela imagem intrigante e percebeu que tinha sangue por todo o corpo, não parou, temeu ser alguma emboscada. Estava assombrado. Ficou pensando no que vira, não acreditava em assombrações, mas assustou-se e não conseguia tirar aquela imagem de sua cabeça. Andou mais um quilômetro, após outra curva viu o mesmo homem pedindo carona, tomou um susto tão grande que perdeu a direção do carro e caiu numa ribanceira. Toda a família morreu.
                                       Alex veio correndo e encontrou o irmão gêmeo Alexandre que contou o ocorrido, estava muito abalado, pois a brincadeira havia se transformado em uma tragédia.  Os irmãos adolescentes haviam se mudado para a casa próxima à estrada fazia um ano, com falta do que fazer, inventavam brincadeiras que deixavam os motoristas assustados. Primeiro tiveram a ideia de colocar pedras fechando o tráfego e quando os carros vinham pensavam que era alguma emboscada de ladrões e voltavam para trás. Os irmãos tiravam as pedras e ficavam esperando a polícia que quando chegava não via nada. Eles viviam aprontando alguma coisa e ultimamente tinha tido a ideia de colocar molho de tomate pelo corpo e assustar motoristas que passavam tarde da noite. Eles eram idênticos, muito magros e excessivamente brancos, conseguindo uma aparência irreal, parados à beira da estrada de madrugada. Ficava cada um em uma curva e os viajantes aterrorizados contavam a história do homem que aparecia na estrada e juravam que era uma assombração, pois aparecia em um local e depois aparecia mais à frente. Mas eles não esperavam pelo ocorrido,  estavam  abalados  com  o que havia acontecido naquele momento, desceram a ribanceira e viram a família morta. Voltaram para a casa e deitaram na cama, mas não conseguiram dormir. No dia seguinte, a mãe veio contar a eles do acidente trágico, fingiram não saber de nada.
                                            Durante todo aquele mês não aprontaram mais, nem tocaram no assunto, com receio. A família foi enterrada e foi dado como acidente. Numa tarde a mãe pediu para que eles fossem até a venda fazer umas compras. Eles não tinham carta, mas já dirigiam a velha caminhonete da família. Quando estavam a caminho  o tempo mudou para chuva e de repente  caiu uma tempestade. Resolveram voltar mesmo embaixo de chuva e quando estavam na estrada o carro derrapou e rodou, eles conseguiram dominar a direção. Ficaram pálidos de susto. Pararam a caminhonete e se  recuperaram do sobressalto. Naquela noite, inexplicavelmente resolveram voltar a fazer a velha brincadeira de assustar as pessoas na estrada.
                                             Vinha um automóvel em grande velocidade, com o farol alto e um dos gêmeos já estava na primeira curva, quando o carro se aproximou ele entrou na frente e o  motorista quase perdeu a direção, acelerou mais com o susto e continuou, quando chegou na outra curva o outro irmão entrou na frente do carro. Estava assustador com sua aparência esquelética e branca, o corpo todo manchado de sangue e os cabelos desgrenhados. O motorista rodou na pista e caiu na ribanceira. Os irmãos não conseguiram ver o carro, estava escuro e chovendo muito. Resolveram dar uma olhada lá embaixo, com jeito dava para descer. Uma menina subiu chorando, estava toda machucada e pedia para que ajudassem seus pais e sua irmã que estavam presos na ferragem. Alex desceu correndo e seu irmão foi atrás, chegando lá viram a caminhonete toda amassada e se aproximaram, parecia com a caminhonete deles. Ao verem o corpo e virarem-no, tiveram um assombro terrível, eram eles que estavam mortos no carro. Eles não haviam sobrevivido naquela tarde e lembraram que perderam a direção ao ver as meninas na estrada. Olharam para trás e lá estavam as duas, olhando-os fixamente, com ódio.