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domingo, 1 de setembro de 2013

QUE SE MUDE A ALMA ENQUANTO VENTA



Ao passo em que me tenho esse semblante
 (Que outrora se formou por entre o ventre)
Que se mude o semblante, conforme a alma.
 E que se mude a alma enquanto vente.

E se o vento ventar em meu espírito
Que venha transformar meu pensamento
Bem antes que se faça em mim um mito
(Bem antes que se passe em mim o tempo)

( Bem antes que meu sonho se torne pouco)
Bem antes que transforme em mim um ópio
E faz de um sonho doce um sonho louco
E bem antes que a paz transforme em ódio.

Bem antes que meus olhos tristes cerrem
Aflitos na agonia de um vazio,
Em que nada se fez pra transformar
E ancorou como um náufrago navio.

“Evoluir somente é o que me basta”
Digo à minha alma que está tão sedenta...
Que se mude o semblante, conforme a alma.
 E que se mude a alma enquanto venta.






segunda-feira, 8 de julho de 2013

O SEGREDO DO LIVRO - O DIA SEGUINTE.


Cap. 3 – O dia seguinte

                                     Bruno era um lindo rapaz, magro e alto, ao sorrir exibia seus dentes perfeitos. Fernando também era muito bonito, de uma beleza dócil; aguardaram ansiosamente o dia seguinte, era domingo, acordaram bem cedo, tomaram café da manhã e saíram ao encontro de seus amigos. Dessa vez quem faria o caminho alternativo eram os dois, pois haviam combinado de irem até a fazenda à procura do livro e com certeza queriam mais detalhe da história que Henrique e Augusto conheciam bem.
                                      Foram andando bem rápido e pouco se falou sobre o assunto. Conversaram sobre a escola, cantarolaram algumas músicas, assobiaram algumas vezes e fizeram silêncio em outras.  O caminho parecia mais longo... Encontraram no caminho dois senhores com vara de pescar que andavam mais vagarosamente e os passaram, deixando-os para trás, Mais adiante encontraram um homem e um menino montados a cavalo e por último avistaram meio distante do caminho que percorriam, um jovem casal, o rapaz levava uma enxada e a moça uma sacola, andavam tranquilamente, sem pressa. Do restante, avistaram muitos bois, alguns cachorros, passarinhos e viram também um tatu que logo se enfiou em um buraco no barranco. E por fim chegaram à fazenda. Seus amigos não estavam no lugar combinado, eles resolveram sentar e esperar, ficaram ali por alguns minutos e depois saíram a explorar o casarão abandonado. Tinha uma porta alta e estava encostada, a empurraram e entraram, tudo naquela casa estava deteriorado e muito sujo, algumas janelas haviam caído e parte do telhado também, o que permitia muita claridade nos cômodos, havia vários quartos e em alguns deles ainda tinham camas e cômodas velhas e quebradas. Sentiram um insuportável cheiro de carniça, provavelmente de algum bicho morto, deduziram eles. Na cozinha enorme, o fogão de lenha ainda estava lá, cheio de poeira e preto de carvão, uma mesa de madeira rústica e com um dos pés quebrado lhe fazia companhia.
                                   Os rapazes olhavam tudo muito atentamente. Um deles  encontrou um punhal no chão, estava sujo de sangue e ficaram assustados. Ao empurrarem uma porta que dava acesso a mais um cômodo do casarão, provavelmente uma dispensa, perceberam algo segurando, olharam pela fresta e viram um pé em decomposição. Empurraram mais a porta e puderam avistar um corpo e completamente horrorizados ameaçaram correr quando ouviram um barulho lá fora, imediatamente um dos meninos pegou o pé da mesa que estava solto e o outro se armou com o punhal, o barulho era cada vez maior e eles ficaram ali imóveis, com os olhos arregalados, ouviram passos e o ranger da porta da sala, os passos se distanciaram como se alguém fosse a um dos quartos, ouviram o barulho de um tilintar de ferro e depois os passos novamente se aproximando.
                                    - Fernando, Bruno, vocês estão por aí...- chamou Henrique.
                                    Entre o susto da voz e o alívio de ouvirem seus nomes, os dois soltaram suas armas e responderam com as pernas bambas.
                                     - Estamos aqui. – A voz saiu trêmula.
                                      Paulo Henrique e Paulo Augusto entraram na cozinha dando risada do susto que deram nos amigos. Os dois estavam transtornados. Mostraram o corpo que acabaram de encontrar , sem saber o que fazer decidiram enterrá-lo, tiveram medo que alguém pensasse  que foram eles que mataram o homem. Depois decidiram que jogariam o corpo no estábulo, pensaram melhor e decidiram deixá-lo ali mesmo, afinal, já fazia alguns dias que o defunto estava naquele cômodo, percebia-se pelo avançado estado de decomposição que se encontrava. Resolveram iniciar as escavações nos prováveis lugares que poderia estar o livro. Estavam todos muito tensos e com medo, mas queriam muito o livro e não quiseram mudar de plano. Durante as escavações o assunto foi o defunto, conversaram sobre  quem seria e o que estaria fazendo ali, seria uma morte por vingança, traição ou mesmo por herança, surgiam muitas histórias nas mentes criativas dos quatro amigos, entretanto  o clima foi ficando pesado e resolveram parar de falar sobre o morto que causava arrepio só de pensar que ele estava dentro do casarão. Resolveram então, para distrair, falar sobre a história que havia sido interrompida no dia anterior:
                                       - Quem vai continuar contando a história do coronel? – perguntou Bruno.
                                        - Acho melhor não falarmos desse assunto aqui. – Disse Fernando.
                                        - Para de ser medroso, agora que é legal contar, além do mais eu quero saber se o bebê no colo da mulher era mesmo o coronel.
                                         - Você está me chamando de medroso e quase borrou as calças ainda hoje, eu vi sua cara assustada quando encontramos o cadáver e começamos a ouvir  barulhos.
                                          - Você também ficou com medo Fernando, ficou branco que nem papel e ainda tremendo que nem vara verde, aliás, está com medo até agora. – Desafiou Bruno.
                                           - Pois eu não disse que não tinha medo, você que está dando uma de valentão.  Ah! Quer saber de uma coisa, querem contar a história que contem.
                                            - Terminaram a discussão? – Perguntou Henrique.- Posso começar?
                                            - Pode! – Disseram juntos Fernando e Bruno.
                                            - Pois bem, eu parei onde mesmo?
                                            - O coronel estava desconfiado que ele fosse filho da babá - Disse Fernando.
                                            - Da babá não “seu mula”, da patroa.- Corrigiu Augusto.
                                            - Ah é, verdade...
                                            - Pois bem – Continuou Henrique – quando sua tia disse o nome da mulher chique do retrato e a cidade onde ela morava, o coronel foi atrás, ele estava tão desesperado na sua solidão que nem pensou porque estava fazendo aquilo, simplesmente estava fazendo. Quando chegou à cidade, viu que era bem pequena e todos se conheciam e não demorou a dizerem a ele que a mulher havia se mudado com seu marido e a filha de dois anos, para lugar ignorado, estavam muito desesperados na época, pois a babá tinha roubado seu filho caçula, ainda um bebê e que isso havia ocorrido a mais ou menos uns dezoito anos, disseram a ele também que o casal era o mais rico da região. O rapaz ficou atordoado com tais informações, o que era uma desconfiança, naquele momento se tornara certeza.Ele era o filho roubado. Ele voltou para sua casa e não sabia onde procurar sua mãe, seu pai e sua irmã. Isso causou nele um grande sofrimento. Uns dias depois, ele começou a revirar uns baús velhos com roupas amarrotadas e encardidas, tinha esperança de encontrar mais alguma pista, encontrou um livro grosso, com capa de ouro, era uma espécie de caderno, pois dentro dele estava escrito à mão em vermelho com uma letra muito linda, dessas letras que se escreviam em pergaminhos. Ele sentou na cama e começou a ler o livro, era assustador. Tinha muitas receitas e dicas de bruxarias. É sério!
                                  - Bruno pode continuar cavando, não é para parar...
                                  - Eu estou cansado, faz um tempão que estamos cavando e aqui não tem nada, a minha enxada está cega, estou com sede, daqui a pouco é hora do almoço e estou ficando com fome. É melhor irmos embora.
                                    - Bruno você esqueceu de dizer: e estou com medo...- disse Henrique dando risada. - Eu trouxe água e também trouxe lanche de mortadela para todos nós e o Augusto trouxe refrigerante e cigarro...
                                      - Eu também trouxe cigarro, dois, peguei de meu pai, ele nem percebe, fuma que nem uma chaminé – Disse Fernando – E trouxe também um pouco de torta salgada, minha mãe mandou uma vasilha cheia, eu disse a ela que íamos fazer um passeio durante todo o dia.
                                       - Eu não trouxe nada. – Bruno falou meio sem graça – Nem pensei nisso.

                                        - Não tem problema, vamos fazer uma pausa e comer alguma coisa, me deu fome ouvir falar de torta e lanche de mortadela, afinal somos filhos de Deus, depois é melhor cavarmos perto do chiqueiro, aqui já cavamos muito. – Sugeriu Augusto.
                                        Durante a pausa para o lanche, não se contou mais a história, falaram de outras coisas, deram muitas risadas, estavam animados e felizes,esqueceram do defunto, fumaram o cigarro e resolveram tirar uma soneca. Depois, quando acordaram, estavam todos preguiçosos, ninguém quis mais cavar, já passava das três da tarde e resolveram ir para casa, combinaram de ligar para a polícia e falar do corpo que estava no casarão e quando  voltassem  no domingo seguinte, não teria mais defunto lá, entretanto Paulo Henrique e Paulo Augusto tiveram que prometer para os dois amigos inseparáveis que durante a semana contariam mais um pedaço da história do coronel. E assim foram embora, cada um para sua casa naquele fim de tarde de domingo.




Cap. 4 – A Semana

                                          Durante toda a semana, os amigos pouco falaram sobre o assunto, não que faltasse curiosidade da parte do Fernando e do Bruno, foi uma semana de muitas provas e eles precisavam estudar nos intervalos de uma aula e outra e não saíram muito de casa, E ainda tinha o assunto do morto, que souberam que a polícia havia ido até lá e retirado o defunto, mas não conseguiram saber quem era, foi enterrado como indigente. O punhal ficou com Bruno, que exibia para todo mundo aquele belo objeto de prata. Na sexta –feira tiveram mais tempo livres e se reuniram no recreio com mais alguns colegas que acabaram participando da conversa, meio sem saber muito o que se passava, mas acharam interessante o bate-papo. Esses colegas eram: Regiane, Verônica, Edson, Lindomar e Marcos.
                                           - Por favor, me diga o que foi que o coronel fez com o livro que ele achou? Perguntou Bruno dirigindo-se a Henrique.
                                            - Ele fez bruxaria para encontrar seus pais... – Disse Augusto que estava do lado dos dois – Ele matou um gato preto num ritual satânico...
                                             - Ele fez essa maldade com o pobre do gatinho? – perguntou Regiane, que estava ouvindo.
                                              - Fez, e algo muito medonho lhe apareceu, ele quase morreu de medo, reconheceu que era o próprio “cão chupando manga” e pediu a ele uma criança. O rapaz saiu correndo gritando, entrou no seu casebre e fechou-o, naquela noite ele não pregou os olhos, tão desesperado que ficou, pensou em mil coisas. Quando amanheceu o coronel pôs logo em prática uma ideia que teve, foi à cidade e comprou um lindo e gorducho leitãozinho rosado, os porcos dele estavam todos grandes e não serviam; levou-o para casa, matou e tirou algumas partes deixando deitado numa caixa. À noite o enterrou e o coisa ruim não apareceu novamente e passado uma semana o coronel já havia esquecido o ocorrido, percebeu que tudo era uma besteira e resolveu tocar sua vida adiante,
                                                 - Nossa! Que história sinistra, cara – Falou Lindomar – E o que aconteceu com ele depois?
                                                 - Ele resolveu voltar à cidade de seus pais verdadeiros e procurar alguma pista, nem que fosse para chegar e falar com cada morador, alguém deveria saber para onde foram. Quando chegou lá, parou em uma pousada para descansar. Antes de subir ao quarto, conversou com o senhor de idade que o atendeu na recepção, tudo indicava que aquela casa era dele e ao comentar a que estava ali, o velho soltou uma divertida gargalhada. Sem entender, o coronel ficou olhando para a cara dele, sério e ele disse alegremente – “Meu rapaz, você tem mesmo sorte, pois eu não via o compadre há quase dezoito anos e olha ele ali” – e apontou para um senhor de meia idade sentado em uma das poltronas da sala, lendo jornal - " você se parece muito com ele, aliás, é ele por escrito quando mais jovem, se o filho dele não tivesse morrido eu até diria que você é o filho dele"... concluiu.
                                                 - Pessoal, vamos, bateu o sinal para entrar na sala de aula. – chamou o servente da escola.
                                                 Todos estavam tão compenetrados ouvindo Augusto que nem deram conta do sinal. Subiram todos correndo para suas respectivas classes.
                                                  Na saída da escola lá estavam todos reunidos querendo saber o que aconteceu. Logo rodearam os dois Paulos que conheciam melhor a história, Paulo Henrique impaciente falou:
                                                   - Eu vou resumir essa história, poderia passar a vida inteira contando, mas já cansei. O coronel encontrou seu pai que o reconheceu, sua mãe já havia falecido e sua irmã estava no exterior, ele ficou muito rico com a herança que recebeu, comprou a melhor fazenda da cidade onde ele morava e casou-se com a moça da janela, não tiveram filhos, pois ela tinha problemas e perdia a bebê quando engravidava...
 
                                                     - Espera aí, assim não tem graça. – Corrigiu Bruno – Eu quero saber os detalhes, por exemplo, como foi o encontro dele com seu pai e como foi o encontro dele já rico com a moça da janela...
                                                      - Quem é essa moça da janela, eu quero saber? – Perguntou uma das meninas.
                                                       - Eu também quero saber – Disse a outra amiga.
                                                       - Dã!... E você acha que nós sabemos os detalhes... Nós estávamos lá, por acaso?- Disse Augusto.
                                                        - Pois saiba que eu estava, Bruno, eu inclusive segurava o lencinho para enxugar as lágrimas do coronel quando se encontrou com o pai...- Ironizou Henrique.- É sério...
                                                          Todos riram...
                                                          - E vocês que pegaram o bonde andando, um dia eu conto o começo da história, agora eu quero ir para a casa descansar, vamos Augusto.
                                                           - Domingo nós vamos voltar lá na fazenda, amanhã a gente combina  – Disse Augusto.
                                                            Todos se despediram e foram embora.


(continua...)
Raquel Delvaje

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O SEGREDO DO LIVRO

     

Cap. 1  o velório

         Estava chovendo quando ele chegou ao velório. A sala era grande, mas naquele momento se tornara pequena diante da multidão que se aglomerava próxima aos cinco caixões. Quando Fernando Prado entrou, fechando o guarda chuva preto e molhando o chão, alguns olhares se voltaram a ele e dele saiu um aceno meio curto e sem graça, alguns abanaram a cabeça num gesto de cumprimento, outros ignoraram e viraram o rosto. Sentou-se numa beira de um banco que acabara de desocupar, próximo à porta, faltava-lhe coragem para ir até os caixões. Foi com muita luta que conseguiu chegar ali. Os choros e gemidos eram constantes, sentia alguns olhares mirando-o,  como se quisessem saber como ele se sentia. – “Estou muito mal! – Tinha vontade de gritar – Eram meus amigos...”. Mas não gritava, não dizia nada. Pensava somente. Lembrava de seus amigos e de tantos anos de convivência. Às vezes tinha a sensação de estar num pesadelo.
          A mãe de um deles aproximou-se, uma mulher gorda de cabelos claros, tinha um olhar cansado, parecia ter envelhecido em poucas horas mais do que envelhecera nos últimos anos,  Fernando  se levantou e a abraçou e como estava reprimindo suas emoções, naquele momento chorou. Percebeu que não estava sonhando, o choro foi alto e compulsivo.
          A chuva continuou bem fininha e começou a esfriar.  Durante todo o velório a mãe do Paulo Henrique esteve ao lado do companheiro de seu filho, que estava tão inconsolável quanto ela, outros tantos se aproximaram com suas condolências. O enterro aconteceu com muita tristeza e depois Fernando foi para casa, mergulhado nas lembranças.



Cap. 2 - Os tempos Áureos

       Tinham entre 15 e 16 anos, Fernando Prado e Bruno Veigas se conheceram no primeiro dia de aula e descobriram que moravam na mesma rua, a partir daí nunca mais se separaram. Paulo Augusto e Paulo Henrique, eles conheceram no ano seguinte quando mudaram de escola. Ficaram amigos inseparáveis e se encontravam também aos finais de semana.
             Os dois Paulos moravam em um bairro mais distante e vinham de ônibus para a casa dos amigos, até que um deles descobriu um caminho alternativo, passava-se pela porteira de uma fazenda abandonada e cortavam caminho por dentro dela, depois pulavam uma cerca, andavam por uma trilha e atravessavam por um riacho raso, subiam um pequeno morro que também tinha uma trilha já marcada e passavam por um pasto, pulavam outra cerca de arame farpado chegando à ponta do bairro onde seus amigos já o esperavam. Eles vinham todos os finais de semana e se divertiam durante todo o dia. A caminhada era longa, os rapazes chegavam ofegantes, porém ávidos de aventura. Sempre havia uma novidade sobre a fazenda que muitos evitavam passar, mas os dois gostavam do desafio e de demonstrar coragem em trilhar aquele caminho. Um dia  Paulo Henrique veio com uma história, foi bem assim:
                - Amanhã eu e o Augusto vamos procurar o tal livro...
                - Que livro?- perguntou Fernando.
                - Você não sabe do livro?- Indagou Bruno. – Aquele que está enterrado na fazenda...
                - Isso é tudo mentira. É história pra boi dormir, eu não acredito em nada disso...
                - Pois é verdade Fernando, a minha avó trabalhou na fazenda quando era menina e ela conta que o Coronel Anercides quando criança era muito pobre, andava descalço e com roupas surradas e muitas vezes não tinha o que comer. Seus pais eram muito velhos e sujos, sua mãe vivia com um cigarro de palha na boca e xingava as poucas pessoas que se atreviam a passar pela trilha que dava acesso ao seu casebre. Nenhuma das crianças tinha amizade com ele, todas tinham medo, pois havia uma lenda que a velha era bruxa e assassina, diziam que ela matava crianças para seus rituais malignos e que jogava o resto para os porcos. É sério! – contou animadamente Henrique.
                 - Eu já conheço todo esse blá blá blá! Inclusive essa lenda que ela matava crianças surgiu porque cinco meninos se perderam e nunca mais foram encontrados. Aí outra coisa que eu não acredito...
                  - E se eu disser para você que minha bisavó, já falecida, conhecia a família dos meninos desaparecidos? Disse Augusto com um ar desafiador.
                  - Verdade? Perguntou Bruno.
                  - Mesmo assim eu vou continuar não acreditando – Respondeu o incrédulo.
                  - Fernando você é cabeça dura... A minha bisavó contava que quatro das crianças eram irmãos e o outro era um primo que veio de outra cidade. Eles começaram brincando no terreiro de casa e depois resolveram mostrar onde a bruxa morava. Com certeza chegaram muito perto e a velha os pegou. A cidade inteira procurou por eles. Primeiro procuraram no rio, que estava muito cheio na época, procuraram nos matos, vieram cachorros farejar, nunca acharam nada...
                   - E porque acham que foi ela?
                   - Um velho que estava passando na trilha disse ter visto os moleques por lá, só que o homem bebia muito, então nunca houve a certeza. O povo invadiu o casebre e colocou fogo em tudo, inclusive nos porcos. Iam queimar a velha viva, só que o delegado chegou e proibiu porque não havia nenhuma prova. E ainda falou, minha bisavó contava, que se queimassem a mulher e depois as crianças aparecessem como que ficaria a consciência de cada um. Depois disso as pessoas foram saindo e ficaram na esperança dos meninos estarem perdidos no mato. Só que nunca mais foram vistos.
                    - Augusto, me diz uma coisa – perguntou Bruno com muito interesse - Se depois os meninos nunca mais foram vistos porque não investigaram melhor a velha?
                     - Isso eu já não sei. Eu sei que depois de algum tempo acharam o corpo de outra menina boiando no rio, numa época de chuva, ela não era da cidade e nem das redondezas, nunca descobriram quem era, então o delegado concluiu que ela viera boiando de muito longe e que fato igual poderia ter ocorrido com os meninos, que eles poderiam ter se afogado e sido levados pela correnteza, igualmente ao caso da menina, era uma época de muita chuva quando houve o fatídico desaparecimento, alguns se convenceram disso, outros não. O fato é que com isso deu se encerrado o caso.
                       - É, mas a menina também poderia ter sido morta pela bruxa, que deve tê-la raptado de algum lugar...
                        - Ué Fernando, não é você que tanto não acredita?- Perguntou todos quase ao mesmo tempo e dando risadas.
                        - Vocês ficam com essas histórias da carochinha e eu acabo me empolgando, só isso...
                         - Não é da carochinha não, Fernando, o pior é o que vem depois. Dizem que todos que participaram colocando fogo no casebre da mãe do Coronel morreram de mortes trágicas, não muito tempo depois. Ela jogou uma praga gritando que todos os incendiários iam se arrepender, estava amaldiçoando cada um e que não escaparia ninguém. Depois de alguns meses rolou uma pedra enorme de um barranco e matou três homens que almoçavam na sombra. Surpresa! Os três haviam participado do incêndio. Nem todos acreditaram, acharam que foi uma coincidência. Passado mais um ano, duas mulheres estavam lavando roupa no riacho e veio uma onça e matou-as, outras quatro que estavam próximas, a onça nem olhou. Aí a população começou a ficar com medo, especialmente os que estavam lá, assim como minha bisavó, só que ela não ajudou por fogo como muitos outros. No final de sete anos haviam morrido os exatos doze que participaram ativamente. Reclamaram para o delegado, para o padre e para algumas autoridades que diziam que era tudo fantasia daquele povo supersticioso.
                           - Como morreram os outros? – Perguntou Bruno.
                           - Um caiu do cavalo. Dois morreram de doença, outro foi assassinado pela esposa e os outros dois morreram afogados.
                            - Esta conta está errada, você disse que eram doze e contou a morte de onze. – Falou Paulo Henrique que ouvia tudo atentamente e numerava os casos.
                             - Não, de jeito nenhum, eu disse doze e numerei doze, você não sabe contar direito – Disse Paulo Augusto irritado.
                              - Não, o Henrique está certo, você citou onze, faltou um.- Bruno apoia o amigo. – Você disse que três morreram no barranco, duas mulheres a onça matou, um caiu do cavalo, dois morreram de doença, um foi assassinado pela esposa e dois morreram afogados. Não foi Fernando?
                               - Sei lá, eu não estava contando, que diferença faz, já morreu mesmo...
                               - Eu quero saber do que o outro morreu – Disse Bruno curioso.
                               - Você tem razão, tem mais um – Falou pensativo Augusto, com jeito de quem tenta lembrar. - O que foi mesmo o outro caso?...Ah! Lembrei! Esse foi o pior caso, pois essa mulher sabia que havia participado do incêndio, estava aterrorizada após a sequência de mortes, qualquer coisinha a deixava em pânico: barulho, movimento... Sempre achando que a morte a espreitava. Nem saía de casa, estava doente de tanto pavor. Até que um dia uma cobra entrou em sua cozinha e a picou e ela caiu durinha quando sentiu a picada, seu marido que estava do lado matou a cobra e verificou em seguida que não era venenosa, ela morreu de medo. Após todos esses acontecimentos, ninguém ousava mais mexer com a velha, ninguém passava mais pelo caminho. Poucos a viam. E muito raramente.
                              - E o que foi que aconteceu depois, seu sabe tudo?
                              - Olha o Fernando interessado pelas histórias da carochinha... – Disse Bruno rindo...
                               - Eu conto o que aconteceu – Interrompeu Henrique - Quando a velha morreu de tuberculose, foi enterrada no fundo do quintal pelo Coronel, porém, seu pai já havia morrido alguns anos antes e sido  enterrado no cemitério, pois ele tinha alguns conhecidos da roça que providenciaram seu enterro, mas quando sua mãe morreu, eles estavam sozinhos e abandonados naquele lugar esquisito,  haviam reconstruído o casebre e recuperado alguns porcos e algumas pequenas plantações, mas era tudo muito miserável.  Após ficar sozinho, o Coronel, então um menino de seus dezessete ou dezoito anos, passou a ir mais vezes à cidade, mas era muito mal visto por todos, ninguém queria se aproximar dele, dizem que ele começou a vender alguns porcos no mercado, entretanto, um dia algumas senhoras disseram que não comprariam mais carne ali se  continuassem a aceitar os porcos do rapaz, que consideravam um herege  e como eram freguesas ricas e com muitas amizades na cidade, preferiram não contrariá-las e o pobre coronel voltou para o seu casebre com o porco. No caminho, viu uma bela jovem na janela de sua casa e se apaixonou, ela por sua vez não o olhou, ele estava mal vestido e sujo e com um porco nas costas. Apesar de toda vida ele ter sido humilhado, nesse dia  sentiu muito mais, naquele momento conhecera o desprezo da jovem que tanto o atraiu. Não era feio, estava maltrapilho e cheirando a porco, dificilmente atrairia algum olhar de qualquer moça. Ao chegar à sua casa ele chorou muito, a solidão estava sempre presente, passou toda noite acordado pensando em sua vida como era desgraçada, pensando no belo par de olhos da jovem na janela e também das senhoras que o humilharam. Foi quando ele, remexendo nas pouquíssimas coisas de sua mãe, achou umas roupinhas de criança e nelas enrolado um retrato de uma mulher de boa aparência com um bebê no colo, exatamente com uma das roupinhas. Ele ficou intrigado com aquilo, quem seria a mulher e a criança?...
                                    - E quem era a mulher e a criança?- Perguntaram os três rapazes simultaneamente.
                                    - Calma que eu digo. Ele passou muitos dias intrigado com a foto, pensava ser ele a criança, mas porque sua mãe nunca lhe mostrara essa foto, e a mulher quem seria? Ele resolveu procurar uma velha tia que o visitava quando criança, pois sabia onde ela morava, sua mãe sempre dizia. Quando foi atrás dela, ele se sentiu um caipira desajeitado, a casa dela era humilde, porém, limpa e arrumada. Ela o recebeu muito bem, ficou sabendo da morte de sua irmã e ficou triste. Ele quis saber a respeito da foto e tirou-a do bolso. Ela ficou pálida ao ver o retrato e as roupas. Conhecera aquela mulher, sua irmã havia sido babá de uma primeira filha que ela tinha, e agora vendo as roupinhas que tinha visto vestir seu sobrinho, percebeu que diferente de como ela havia contado que adotara o menino, passou-lhe um calafrio, teria sua irmã roubado o menino de sua patroa?
                                   - Então, ela havia roubado o bebê? – Perguntou Bruno, sempre o mais curioso.

                                    - Quer saber de uma coisa, eu cansei dessa história, outro dia eu termino de contar.Vamos jogar bola...- Sugeriu Henrique já correndo para o campo.
                                      Todos o seguiram correndo e já chutando a bola para o campinho improvisado e de pouco gramado.

 (CONTINUA...)

Raquel Delvaje

sexta-feira, 22 de março de 2013

MISTÉRIO XXVI - A SINISTRA CASA MUSICAL



                                Era uma pequena cidade do interior de Santa Catarina onde prevalecia a exploração do carvão. Os homens trabalhavam em minas colocando suas vidas em iminente perigo. Não havia futuro para os jovens, aos homens restava aquela única profissão. A década era 60, Manoel, um jovem ambicioso, havia ganhado um prêmio representando o Brasil nas Minas de carvão, foi ele e seu pai aos Estados Unidos e ficaram seis meses, teve oportunidade de conhecer novidades musicais e de modos e estilos que encheram a cabeça do adolescente sonhador. Músicas com ritmos contagiantes.
                                Seguindo as tendências americanas, Manoel começou a tocar os discos em sua garagem e atraía vários amigos. Não contente, sonhava com uma excelente e famosa boate. Mas tudo era muito difícil, encontrava constantes barreiras, ora com os anciãos da província, ora com a própria igreja que condenava aquele ritmo musical, dizendo que era manifestação do capeta. Muito contrariado, numa madrugada fria e solitária, caminhando pela cidade, encontrou um anão que já era seu conhecido, estiveram juntos um pouco antes de ele ir aos estados Unidos:
                                 -Olá, disse o pequeno homem.
                                 Surpreso com o encontro, pois já nem se lembrava do tal homenzinho, o cumprimentou meio desconfiado. O anão foi logo perguntando sobre sua vida, se havia mudado desde o último encontro.
                                 - Você se lembra de que havia dito que gostaria de conhecer os Estados Unidos?  Pois então, eu realizei seu sonho. Eu lhe disse que o faria. Ficou contente?
                                  Nesse momento, Manoel lembrou-se da conversa que tiveram no passado, naquela noite estava triste, começara a trabalhar nas minas de carvão, pois seu pai, o Adamastor, já estava debilitado dos pulmões. Refletira que seu pai nem era tão velho, mas parecia ter muito mais idade e isso o deixou desolado. Foi quando encontrou esse anão que se apresentou com o nome de Lucinero e prometeu a ele uma vida diferente, bastava que desejasse e teria seus sonhos realizados. Uma semana depois, houve um concurso na escola onde os alunos dissertavam sobre a vida nas minas de carvão e ele falou com tanto sentimento da vida que seu Adamastor levava, das dificuldades, da doença provocada pelas más condições no trabalho, que sua redação ficou famosa e enfim ganhou o primeiro premio e ainda foi convidado a falar sobre o assunto em palestras nos Estados Unidos. Agora estava ali, estaca zero, tudo igual. Acabara o prestigio e deveria voltar para as minas. Sonhou com a boate, porém não teve jeito, as poucas pessoas que frequentavam não eram suficientes para garantir sua sobrevivência. E naquele momento, abria seu coração para Lucinero que o ouvia e o enchia de esperanças, pois dizia que assim como o levou ao exterior, daria a ele uma famosa boate e que viria gente de todas as redondezas e em pouco tempo estaria rico.
                                Ao amanhecer o dia, Manoel teve a sensação de que veria seus sonhos  realizados. Naquele final de semana tinha o dobro de jovens em sua garagem. E semana após semana ele viu esses jovens dobrarem e o dinheiro que era cobrado se multiplicou e ele se viu na condição de alugar um imóvel e montar sua boate. Era tanta gente que vinha dançar que nem ele acreditava, toda semana tinha dinheiro para investir.
                                 Os mais velhos da cidade não viam como uma boa influência aquelas músicas, tentavam afastar seus filhos desse caminho.
                                 Depois de algum tempo, Manoel se viu desfrutando de riquezas, mas ainda queria mais. No dia da festa da padroeira da pequena cidade, houve uma manifestação da igreja que aquela danceteria não abrisse, entretanto foi em vão, pois eles abriram, contrariando todas as regras da província.
                                   Aldelina era uma mulher que tinha uma audição privilegiada, todos a conheciam. Era capaz de ouvir o trem a quilômetros de distância, como também  ouvir rolar pedras dentro da terra e antes de acontecer uma tragédia de soterramento de alguma mina, conseguia  avisar a todos e se salvarem a tempo. Devido a isso , era muito respeitada na cidade. Conhecia também os segredos de muitos. Mas era discreta.
                                    A velha mulher andava muito angustiada, porquanto ouvira a conversa naquela madrugada silenciosa, sabia que algo errado acontecera. Sua filha caçula, que era adolescente, também estava indo à boate e não tinha nada que a fizesse parar de ir. Aldelina tentava convencer a filha que não fosse mais naquele lugar, sentia em seu coração uma angustia ao ver sua Lidiana saindo acompanhada de mais seis jovens e também de Manoel, que era seu amigo desde criança. Três deles eram sobrinhos da mulher.
                                  Muitos jovens e também adultos estavam na danceteria quando houve uma grande explosão de uma mina, afundando a casa musical e levando consigo todos que estavam ali, inclusive os oito jovens. Houve um grande alvoroço na cidade, tentativas de escavar, mas nada encontraram, as buscas foram durantes dias, até  resolverem partir para um funeral simbólico dos desaparecidos. Aldelina  estranhava, pois pela primeira vez não ouvira nenhuma pedra rolar antes da explosão e ficava ali sentada triste, velando o lugar onde sua filha estaria soterrada.
                                   Foi numa tarde que a mulher pensou ter escutado algo e resolveu colocar seu ouvido próximo ao chão e pode ouvir nesse momento uma música, a mesma que estava acostumada a ouvir nos dias em que a boate abria. Sentiu um arrepio pelo corpo. Tinha certeza do que estava ouvindo, a música tocava como se a boate estivesse em pleno funcionamento. No desespero, chamou algumas pessoas para ouvir também, mas foi vista como louca. Foi o que todos pensaram, que tivesse enlouquecido com  a morte de Lidiana.
                                   Desconsolada a pobre mulher resolveu escavar por dentro de uma mina que havia perto e que estava desativada. A mulher seguiu durante meses o som da música que tocava  sem parar, ela entrava pelo túnel sem que alguém a percebesse e passava dia e noite cavando em direção ao som que se tornava cada vez mais audível para ela. Passado onze meses e alguns dias da tragédia, a cidade estava em alvoroço para a festa da padroeira e ela sabia que sua última chance acabaria quando completasse um ano. Ela continuou firme e acelerou mais sua escavação, passando mais horas trabalhando. O coração de Aldelina disparou quando ela se encontrou finalmente com a parede da boate, que estava intacta. Faltava uma hora para completar um ano da tragédia, a mulher se apegou à fé que tinha e começou a quebrar a parede, foi quando viu ao seu lado uma santa. A mãe de Lidiana tomou um susto tão grande que deixou cair a ferramenta de sua mão e começou a tremer e ouviu aquela aparição dizer a ela que não temesse, pois o que veria era o próprio inferno, mas essa era a  única chance de resgatar sua menina.
                                   A mulher se encheu de coragem e deu a última machadada, terminando a abertura e o que viu ali foi a coisa mais terrível que ela nunca imaginou que veria um dia. A música tocava alto e jovens dançavam como se estivem em hipnose , estavam pele e osso e com os cabelos desgrenhados. A casa noturna estava iluminada por labaredas de fogo e o calor fazia com que os corpos suados e fedidos parecessem cera derretendo-se. Algumas pessoas estavam pregadas nas paredes e tinham algumas partes dos corpos mutiladas, mesmo assim continuavam dançando sem parar. Em seus olhos havia a expressão de enfado, o cansaço visível e o terror estampado em cada rosto. Havia pelo salão pernas, braços e dedos cortados. Cada vez que alguém forçava  parar de dançar o membro dançava sozinho até se soltar do corpo e cair ainda se mexendo até a exaustão do próprio órgão. A luz era nefasta e Aldelina entrou naquele recinto fedido de suor, enxofre e carniça e procurou por sua filha e a encontrou dançando freneticamente, ao ver a mãe gritou desesperada:
                        - Me ajuda!
                        - Filha venha, vamos sair daqui!
               Assustada a menina segurou na mão da mãe e sentiu que seu corpo parou de se agitar, seguiu-a, mas logo se lembrou de seus amigos, gritou à mãe que não poderia deixá-los e imediatamente a mulher começou a procurá-los, segurando firme nas mãos de Lidiana. Encontrou os jovens um a um e foi segurando todos e indo em direção ao buraco da parede. Porém, surpreendeu-se com a presença do diabo que recusou deixá-la passar, dizendo que os adolescentes pertenciam a ele. A mãe da jovem começou a rezar em frente ao capeta e a dizer que aquelas almas não o pertenciam. Nisso Manuel desprendeu-se da mão da mulher, a oração queimou- lhe os dedos que caíram ao chão. O diabo estava resoluto em não deixá-la sair mais dali. Contudo ele sentiu que não mais poderia segurá-la, pois a reza lhe queimava também. Ele disse que ela sairia, porém sozinha. Aldelina decidida enfrentou o demo e passou por ele levando os seis jovens e sua filha. Manoel gritava desesperado querendo ir junto, mas todas as vezes que ele tocava na mulher queimava-se, ficava em chamas e derretia-lhe uma parte do corpo. Afligida com a situação de Manoel, a mulher ainda tentou puxá-lo e viu que era em vão, pois mais o rapaz se queimava. Ela saiu chorando com os jovens resgatados, soube que não havia mais tempo, ouviu nesse momento uma pedra rolar e sentiu que a mina ia desabar. Correram muito até chegar à saída e ao alcançarem a passagem os jovens desmaiaram. A pobre mulher não quis deixá-los sozinhos para buscar ajuda, temia que o diabo viesse e os levasse de volta, deitou-se ali, abraçada a eles até o dia amanhecer.
                   A procissão da santa padroeira chegou ao local e ajudaram a resgatar todos com segurança, os levaram para um tratamento, estavam todos desidratados e delirando, foram colocados no soro por muitos dias. Quando se recuperaram não souberam dizer o que havia acontecido e Aldelina explicou que estavam presos na mina , mas nunca falou sobre o inferno e o diabo. Eles acreditaram, pois não tinham lembrança de nada do que acontecera. Nunca ninguém daquela cidade entendeu como eles sobreviveram um ano soterrados e questionavam sobre as outras pessoas. A mulher simplesmente dizia não saber. De vez em quando alguém ainda a vê colocando os ouvidos naquele pedaço de chão e fica ali um bom tempo. Dizem que ela ouve a música tocando.
                           
  
Raquel Delvaje

sábado, 9 de fevereiro de 2013

MISTÉRIO XXV - O SINISTRO RITUAL MACABRO.





                 Quando Marina cruzou a rua da periferia de Campinas, trazia seu coração acelerado, experimentava o medo por caminhar pouco menos da meia noite num lugar tão obscuro, entretanto, estava decidida.  Fazia um mês que ela conhecera Rodrigo Alves, homem jovem, rico e bonito que estava sempre nas colunas sociais. Após se conhecerem, a moça pobre se encantou com o rapaz. Ela era alta, morena e de olhos cor de mel, despertava a atenção por sua formosura, porém, nunca dava sorte com nenhum homem, acabava sendo mais uma aventura. Com Rodrigo, no início se sentiu desejada, mas após uma semana percebeu que o seu novo afeto já não a correspondia, chateada, buscou muitos meios de conquistá-lo, mas foi em vão.
                   Um dia foi conversar com uma mandingueira que disse a ela que fizesse um trabalho e teria seu amor retribuído por sete anos e se fosse bem feito, apropriar-se-ia de riquezas. A apaixonada aceitou a proposta e era justamente isso que estava indo concretizar na noite escura e gelada. Não havia ninguém nas ruas e estava à procura de uma chácara abandonada que tinha uma enorme árvore antiga, que foi por muitos anos abrigo de rituais macabros. Precisaria chegar antes de completar meia noite e sair de lá somente ao amanhecer. Levava consigo um gato preto que deveria enterrar vivo ao pé da velha árvore.
                   Ao deparar com o portão antigo de ferro e os muros altos, teve dúvida de como entraria, porém percebeu que o cadeado estava aberto, puxou a grossa corrente enferrujada e adentrou-se, fechando-o novamente. Sentiu um calafrio terrível, o medo a dominou. A escuridão da noite de lua minguante fazia tudo ficar mais tenebroso. A árvore gigante estava à sua frente fazendo uma sombra carregada e ela não conseguia distinguir nenhuma imagem naquela penumbra, as luzes dos postes ficaram para trás, na rua, e ali ela só tinha o breu como companhia. Sentou-se na grande raiz e olhou no relógio, faltavam dez minutos e tinha que aguardar completar meia noite.
                  De repente, arrependeu-se pela decisão que havia tomado, quis ir embora, foi até a saída e misteriosamente estava com o cadeado fechado, estremeceu de medo. Tentou escalar o portão, mas era muito alto e tinha lanças pontiagudas. Principiou a chorar em desespero, queria sair dali, mas não conseguia. Quando olhou no relógio, viu que era meia noite e começou a gritar que alguém a socorresse. Veio um velho do fundo da chácara e a acalmou dizendo que não se preocupasse, ele ia buscar a chave. Marina ficou aliviada com aquele homem com a barba por fazer, vestindo roupas surradas e com chapéu de palha, com jeito de caipira. Sentiu confortar seu coração com a presença, acompanhou-o e ao aproximar-se do arvoredo ele pediu para que ela o esperasse ali, não tinha perigo nenhum, ia até o casarão pegar as chaves. A moça assentou-se novamente no mesmo lugar de antes e estava aliviada, mas bastou o homem sumir na escuridão e seu coração disparou. Pensou em correr atrás do matuto, mas se conteve, pois não sabia exatamente o que havia à frente, o breu dominava tudo. Resolveu fazer uma pequena fogueira para espantar o frio e a escuridão.
                     Ao levantar a cabeça, viu uma senhora se aproximando com um bebê, colocou-o no pé da árvore e tirou uma faca da cintura e enfiou no coração da criança. Assustada, Marina gritou e tentou tirar a faca das mãos da mulher que a olhou com sua face desfigurada, comida por vermes.
                     - O que você fez – Gritou marina  - Você é louca.
                 
                      Segurou-a pelos pulsos, tentando evitar que ela esfaqueasse mais o recém-nascido e essa a jogou longe com uma força abissal. Pegou a criança e bebeu seu sangue como se fosse um animal faminto, após, comeu lhe a carne saciando-se e a moça horrorizada assistiu a cena caída ao chão ao lado do fogo que quase a queimou. Apareceu o velho com um molho de chaves e ela correu aos seus braços, chorando e denunciando o que havia visto.
                       - Não se assuste! Isso é normal por aqui, com o tempo você se acostumará – disse o velho.
                       Ao olhar para ele, já não era mais o homem que havia visto, estava transfigurado, tinha uma cara extremamente enrugada e os olhos vermelhos como brasa, estava mais magro, quase uma caveira, suas mãos estavam compridas e com enormes unhas. Pegou o que restou do bebê e comeu faminto e riu satisfeito. Marina começou a chorar e correr. Foi facilmente alcançado pelo velho que rasgou sua carne com as unhas afiadas e levou-a de volta para a árvore e disse:
                       - Agora você escolhe, ou come o bebê ou será comida por nós.
                      Olhou à sua volta e viu várias pessoas e outro recém-nascido pronto para ser sacrificado. Ela sangrava com o ferimento em suas costas. Entre as pessoas estava Rodrigo, Marina ficou abalroada ao ver seu amado ali entre as aberrações e ele estava horrível e lhe sorria e dava as boas vindas ao mundo do sucesso. O seu amado estava com uma aparência sombria e seu rosto não tinha mais a beleza, era um rosto profundamente magro e em sua cabeça tinha apenas alguns fios de cabelo, em contraste à bela cabeleira negra de outrora, seus dentes amarelos e raros e a pele cinza. Ele estava bebendo o sangue quente do gato preto que havia sacrificado naquele momento. Marina pegou o bebê, todos sorriram, uma vez que sabiam que ia sacrificá-lo, mas num ímpeto a moça correu com a criança no colo atiçando a ira de todos os presentes. Fugiu e conseguiu se esconder no casarão e viu quando todos a procuravam ensandecidos. Conseguiu se embrenhar no mato e alcançou o rio. Ficou escondida quieta enquanto o pequeno bebê dormia tranquilamente, agasalhado em uma  manta.
                       Ao amanhecer o dia, voltou para sua casa e não sabia o que fazer, pensou em ir a uma delegacia, porém teve medo, não sabia o que aconteceria com os dois. Estava cansada demais para pensar em alguma coisa. Deitou exausta na cama para dormir e acordou com alguém batendo na porta e ao abrir era  Rodrigo, todo sedutor, dizendo que a amava e que gostaria de viver com ela e  que abandonaria a vida errante. Marina se entregou ao amor, seduzida pela paixão. Entraram duas pessoas despercebidamente ao outro quarto e devoraram a criança, arrancando-lhe a cabeça para levar ao novo ritual noturno, quando a moça percebeu o movimento em sua casa, foi ao outro cômodo e se deparou com aquelas pessoas com a boca ensanguentada e rindo diabolicamente. Ela, revoltada, atacou  a todos com fúria e Rodrigo se transformou com garras e rasgou sua carne, lambendo os dedos e se saciando com seu sangue. Ela olhou para ele e jurou vingança. Ele riu incrédulo. E a matou sem piedade.
                       A polícia encontrou o corpo e pelas investigações chegou facilmente ao moço que foi preso.
                         Rodrigo ordenou que o capeta fosse visitá-lo, pois tinham um trato. Após uns quinze dias que ele estava na prisão, recebeu a visita de um homem bem vestido que se apresentou como advogado e ao chegar à cela foi logo cobrado pelo rapaz furioso que disse que ele tinha obrigação de protegê-lo. Esse, calmamente, olhou-o com olhar frio e penetrante e respondeu.
                 - Você já ganhou o que queria, nosso trato era de sete anos, agora é isso ou a morte!
                   O moço ficou aturdido quando percebeu a cilada que estava. E quando olhou para o capeta, viu atrás, a moça rindo feliz, pois se aliara ao demônio e pediu vingança pela sua morte em troca de sua alma.
                  Naquela noite, ela estava lá na chácara, comendo e bebendo carne e sangue ofertado por mais um ganancioso que faz qualquer coisa por riqueza, sucesso e amor.
                  E quem passa por aquelas bandas à meia noite sente um calafrio e avista ao longe aquele pequeno ritual macabro.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

MISTÉRIO XXIV - O MISTERIOSO CASO DO MENINO DA RODA DOS EXPOSTOS.



                                                          Era madrugada quando tocou a campainha da roda dos expostos, a primeira do Brasil, em Salvador, no ano de 1736. A freira bondosa acordou sonolenta e sentiu seu coração disparar, era a segunda criança da semana. A rotina naquele asilo nos últimos dois anos estava bastante agitada, tinha noites que deixavam duas a três crianças. Maria do Rosário era bondosa com os pobres enjeitados, acolhia-os com amor  e dedicava sua vida em servi-los:
                                 - Boa noite, meu filhinho, prazer em recebê-lo, nós vamos cuidar de você – Disse isso e sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos.
                                  Era preocupante a situação do abrigo, havia muitas crianças e não parava de chegar outras tantas. E sempre que vinha um novo morador, era cercado pelas mulheres, querendo ver a carinha do recém-chegado à vida. Colocaram o nome de Raimundo e imediatamente passaram a chamá-lo de Mundinho. O padre Aurélio chegou cedo para tomar café e foi  lhe apresentado o menino. Quando o pároco olhou para aqueles olhinhos brilhantes, teve certeza de ter recebido um sorriso e sorriu também. Foi uma simpatia imediata, prometeu que se ninguém o levasse, quando ficasse mais mocinho iria para a capela, seria coroinha, pegou-o no colo e riu largamente.
                                    As visitas que já eram diárias passaram a acontecer mais vezes ao dia, bastava não estar em alguma função na paróquia que apressava os passos para a casa de abrigo. As senhoras, frequentadoras das missas, acostumadas com a visita do padre nas horas do chá e dos jantares, estavam estranhando o sumiço, ficaram enciumadas com o pequeno Mundinho ao saberem que era o motivo da ausência do homem.
                                      Os anos passaram e ninguém buscou o menino, que crescia forte. No bilhete que estava com ele no dia em que fora deixado na roda, dizia que possuía uma mãe que o amava muito e que viria buscá-lo, mas esse dia nunca chegava e o moleque não conhecia outra vida que não fosse aquela do asilo. Esperto e falante, vivia tirando as irmãs do sério, que eram carinhosas e a maioria gostava dele, pois sabia cativar. Mas tinha uma freira, Griselda, que era muito mal humorada, essa o órfão nem chegava perto, era a que mais aplicava a palmatória e se irritava por qualquer motivo. Tinha uma implicância em especial com aquele que era o pupilo do padre, mas em vista deste, sempre fingia carinho. Um dia, ao deixar cair o prato da refeição no chão, Mundinho com seis anos, foi cruelmente castigado por Griselda, que além de deixá-lo sem jantar, bateu com a palmatória e prendeu-o no porão frio e escuro, onde tinha ratos e baratas e o deixou por toda a noite. As demais freiras não concordavam com tamanho castigo, mas obedeciam, pois eram subordinadas. Quando padre Aurélio chegou no dia seguinte mais cedo que de costume, pois uma delas conseguiu avisá-lo do castigo imposto  ao órfão, a freira algoz ficou pálida que nem papel e correu tirar o moleque do porão e assustou-se,  o menino estava com o rosto desfigurado pelas mordidas dos ratos. Foi um choque terrível para todos os presentes, a criança quase morreu, teve febres e infecções. Depois de ter sido tratado por um médico que estava residente em Salvador, ele se recuperou da infecção, mas ainda estava aberta a ferida e precisava de cuidados maiores e por decisão de todos, foi morar na capela.
                     Assim que chegou, foi muito bem recebido, as mulheres frequentadoras da paróquia vieram recepcioná-lo e encheram o pároco de elogios, todas eram unânimes em citar a bondade e o espírito generoso ao acolher a criança e o padre por sua vez, sentia-se muito feliz, pois adorava elogios.
                      Passado alguns meses, houve a cicatrização do ferimento e  ficou uma coisa horripilante. Muitas pessoas sentiam repulsa ao ver aquele rosto tão deformado e o padre  arrependeu-se de ter acolhido o menino. Não sabia como se livrar, pois assim como foi enaltecido pela atitude do acolhimento, poderia ser mal visto ao deixá-lo, percebeu que não tinha opção, teria que ficar com a criança. Passou a se aborrecer com a presença do pequeno que já não conseguia ser tão engraçadinho, era repelido o tempo todo e via nos olhos das madames o desprezo e ouvia as palavras de infortúnio e comiseração. Passou a ser um fardo e não demorou muito para as pessoas pedirem ao padre que durante a missa ou eventos sociais que aquela criança não aparecesse publicamente. E foi assim que o Mundinho ia crescendo, desprezado. Via os anos passarem e tudo ficava pior, sua feiura só aumentava. As pessoas se desviavam e ninguém queria se aproximar dele. Vivia no claustro como um bicho, escondido de todos. O vigário praguejava o dia em que decidira ficar com aquele menino.
                       Um dia, chegou uma mulher para se confessar, dizendo ao padre Aurélio que não podia mais conviver com a culpa de ter deixado uma criança na roda, pois havia engravidado e conseguiu esconder a gravidez da família, era solteira e pretendia na época noivar e casar. Por um amor infeliz, Laura perdeu a inocência e teve um filho, o qual não pode assumir. Disse ela que estava disposta a reaver a criança que estaria com 13 anos, seu marido havia falecido e podia adotar o menino sem que ninguém soubesse, era uma forma dela se dizimar da culpa que a perseguia. Surgiu uma esperança no pároco que aquela criança fosse Mundinho e prometeu à mulher que a ajudaria, pediu alguma informação que auxiliasse a encontrar o filho. Ela disse que quando o deixou ele tinha uma pulseira de ouro com uma pequena cruz e estava vestido com vestidinho azul e coberto com uma manta de pele. Naquele mesmo dia, o vigário foi ao abrigo e pediu para as freiras que gostaria de olhar o livro de registros. Griselda o acompanhou. Desde o dia do incidente, a mulher mudou completamente, ficou menos severa e procurava ser melhor para as crianças. Sentia-se muito mal, pois sabia do destino cruel do menino e de sua culpa. O padre a olhava incriminando-a e a desprezava, sentia que aquela freira era culpada do fardo que ele agora carregava.
                           Entraram os dois sozinhos na saleta escura e estreita, quando estavam folheando as páginas dos livros de registro, tanto o padre quanto a freira torciam para que o menino fosse Mundinho. O vigário havia dito a ela o ocorrido e talvez fosse uma forma de ambos se aliviarem da carga e foi um grande desapontamento quando viram que a criança da pulseirinha de cruz era na verdade José Maria, o menino que havia sido colocado na roda na mesma semana. Ambos sentaram e se entreolharam amargurados com a descoberta. O silêncio se fez diante da desconcertante revelação e foi quebrado por Griselda que teve uma iluminada ideia. Sugeriu que trocassem os registros, estavam tão próximos que não haveria como desconfiar, trocaria os nomes de Mundinho por José Maria e vice versa, usaria uma técnica que aprendera para fazer correções sem rasurar. Acordo feito, era só comunicar a compungida mãe que seu filho era Mundinho. Prometeram um pacto de segredo, em que ambos eram interessados.
                               Ao apresentar para a  suposta mãe, o menino, foi visível a cara de decepção que ela esboçou e se recusou a reaver aquele filho. Diante de seu segredo revelado, o padre coagiu-a a adotar o órfão, dizendo que ela era a mãe e deveria se responsabilizar. Tentaram de toda a forma um acordo. Laura sugeriu ajudar financeiramente a igreja, mas o padre não queria mais o Mundinho, nem por dinheiro, não suportava a ideia daquele convívio em sua capela e não podia devolvê-lo ao abrigo, pois não seria bem visto. A mulher explicava que as pessoas iam desconfiar, pois o que levaria alguém a adotar uma criança deformada que causava repulsa a todos que o viam. O padre balançava os braços desesperado na tentativa de convencê-la, dizendo que podia alegar amor ao próximo. Mas ela estava irredutível, disse que não e pronto.
                              O vigário furioso ameaçou revelar o segredo e ela o olhou indignada, não acreditava que estava ouvindo esse despautério e paralisou-se diante da possível revelação de seu passado. Era uma mulher da sociedade e acabaria com toda a reputação dela. Isso não podia acontecer. Diante do impasse, tomaram uma decisão, matariam o menino e todos estariam livres. A freira foi chamada e ficou lívida diante do proposto. Disse que jamais participaria disso. Mas o padre foi veemente ao dizer da culpa que tinha ao mexer nos dados do livro e que seria interessante Dona Laura ser revelada da trama suja. Diante das ameaças, Griselda viu que não tinha outra saída, deveria aceitar e por um ponto final em tudo.
                            Após o combinado, a suposta mãe foi até a capela e pegou o Mundinho, que estava magro, disse a ele que iriam passear. O menino sentiu uma alegria muito grande em seu coração. Aquela mulher bonita dando lhe atenção era realmente comovente ao pobre enjeitado. Ao chegarem a uma cabana, no meio do mato, o menino muito alegre, conversava timidamente. Laura sentiu dó e não queria mais  realizar o plano de matar aquele que ela pensava ser seu filho. Abraçou-o e revelou  ser sua mãe, que não poderia ficar com ele, mas o amava. Mundinho sentiu seu coração cheio e forte. Abraçou Laura e pediu que não o deixasse nunca mais, que ele também a amava e esperou por muito tempo sua volta. A mulher, tomada pela emoção, prometeu nunca mais o deixar e diante do combinado chegou o padre com uma faca e a freira. O menino pressentindo alguma coisa, olhou para Laura com seus olhinhos encharcados de lágrimas e disse:
                             - Mamãe, o que vocês vão fazer?
                              O vigário a olhou juntamente com a freira e entregaram lhe a faca. O padre segurou o menino pelo corpo franzino e mandou que Laura o esfaqueasse, senão revelaria seu segredo. A mulher, tremendo, segurou a faca na mão e enfiou na barriga de Mundinho, que chorou e olhando para a mãe disse:
                             - Mãezinha, por que fez isso comigo? Aquele bilhete que você me deixou dizendo que eu tinha uma mãe que me amava muito e que um dia voltaria... Sempre lhe esperei...
                             Assustada, Laura olhou para o padre e para a freira e disse como se fosse um instinto:
                             - Esse não é o meu filho, eu nunca deixei bilhete nenhum...
                             O padre tomou a faca de sua mão e esfaqueou o menino que chorava, matando-o. Griselda tremia. A suposta mãe exigiu uma explicação do que aconteceu ali, dizendo que aquele não era seu filho e a obrigaram a cometer um assassinato. A freira confessou ter trocado as fichas, diante do pároco que a mandava se calar. Histérica e em estado de choque, Laura pegou a faca e atingiu o padre que caiu no chão, foi para cima dele e perfurou-o inúmeras vezes, até ver a última gota de sangue jorrar  e a freira saiu correndo em seus passos pesados, pois era gorda e tinha pouco fôlego, facilmente a mulher enfurecida e com a faca na mão a alcançou, esfaqueando-a também.
                              No dia seguinte, Laura foi até o abrigo à procura de um menino que tinha sido deixado lá com um bilhete dizendo que sua mãe o amava e um dia voltaria para buscá-lo. Maria do Rosário deduziu que seria Mundinho,pois lembrava desse bilhete, mas ao olhar os registros, estranhamente verificou que se tratava de José Maria, concluiu que estava ficando velha e já não raciocinava bem. Laura disse que era filho de uma empregada antiga sua e que lhe pedira que o adotasse.
                              Após constatarem o sumiço do padre, da freira e do menino, encontraram os dois primeiros esfaqueados e mortos, um ao lado do outro. Estranhamente o corpo de Mundinho não estava lá e foi atribuído a ele o assassinato. Uma vez por ano Laura leva flores a um curioso túmulo no meio do mato, ela pede perdão e deposita as flores sobre uma pedra com a inicial M. E todas as vezes ela já sabe o que vai ver quando se levantar, um menino todo deformado que abre lhe os braços e diz:
                              - Mamãe, que bom que você veio!
                               Ela o abraça:
                              - Mamãe está aqui.
                               Ele chora e pergunta:
                              - Por que você me matou?
                               Ela o consola:
                              - Não pense nisso agora...
                               Laura canta lhe uma canção até ele parar de chorar e eles se despedem até o ano seguinte. Pois a mulher sabe que ele vai estar lá, esperando sempre e ela não vai deixá-lo, conforme o combinado.
                           

                       


MISTÉRIO XXIII - O SINISTRO CASO DO MAL ENTENDIDO.





                                     Esse caso aconteceu no final do século XIX, numa cidadezinha de Minas Gerais, um lugar tranquilo e de poucos moradores. Jocemar era um homem trabalhador e tinha, com muita luta, conquistado um pequeno comércio, mas não ia bem. Havia contraído  dívidas e andava preocupado. Estava no balcão, em pé, com o cotovelo apoiado e a mão no queixo. Pensativo, analisava um meio de sair daquela situação. Não tinha nenhum cliente naquele momento, eles estavam escassos desde que surgiu um concorrente na rua de cima, que trazia novidades e produtos melhores da capital. Sem recursos, o comerciante via-se cada dia mais às mínguas. Quando foi surpreendido por um menino:
                                   - “Moço, Padim perguntô si o sinhô qué enricá?
                                    -“ Quê”? – perguntou o homem surpreso com aquele menino de calças curtas e cabelos negros.
                                   - “Padim perguntô si o sinhô que enricá”?
                                   - “Padim? Que Padim? Por um acaso é algum daqueles unhas de fome dos parentes de mãinha?
                                    - “Sei não sinhô, sei somente que ele mandô perguntá”.
                                     - “Quero dinheiro dessa corja não. Se eu tivé que enricá vai ser por meu esforço. Faça-me o favor de levá esse recado a ele”
                                      O moleque saiu correndo, mas antes deixou um pacote no balcão. Quando Jocemar abriu e viu a quantia de dinheiro que havia, correu atrás dele que gritou ao longe que o dinheiro era para ele, dado pelo “ Padim”. Ao chegar à casa, o comerciante contou para a esposa Juraci o ocorrido, ela sugeriu que usasse para pagar as dívidas que com certeza era de algum tio ou irmão de sua mãe, arrependidos pela injustiça do passado.
                                     Após um ano, o comércio de Jocemar já estava melhor, mas ele não estava satisfeito diante do crescimento do concorrente que havia ampliado as instalações, o homem estava se corroendo de inveja. Num final de tarde chuvoso e frio, não havia mais ninguém nas ruas e o comerciante pensava em fechar as portas e ir para casa, no aconchego de seu lar com sua mulher e seus três filhos. Quando se preparava para pegar o guarda chuva, ouviu uma voz atrás do balcão.
                                       -“ Moço, Padim perguntô si o sinhô qué enricá?
                                        - “Cê di novo aqui moleque, quem é esse Padim? Ninguém dá dinheiro pá ninguém não, mi exprica essa história”...
                                        - “Sei di nada não sinhô, sei somente qui Padim perguntô si o sinhô qué enricá”.
                                        - “Pois diga a esse Padim que quero falá com ele”
                                         - “Ele vem não sinhô, ele só vem si o sinhô repondê qui qué enricá”
                                         - “Pois eu não quero! Diga a ele que eu não preciso do dinheiro dele, quando mãinha mais precisô eles não quiseram ajudá. Diga que agradeci pelo dinheiro, vou pagá o que ele me emprestô, não quero nada dessa gente”.
                                          O menino virou as costas e saiu correndo, mas antes deixou um pequeno embrulho sobre o balcão. Quando o comerciante viu o pacote, correu em direção a ele para devolver, mas não houve mais tempo.
                                          Contou para Juraci, que ficou feliz, dizendo que gostaria de comprar umas roupas para os filhos, não pensou duas vezes em gastar. O marido não quis que usasse o dinheiro, guardou-o por dois meses. Depois, diante das necessidades, resolveu usá-lo. Mas ficou preocupado se viessem lhe cobrar essa quantia. Mas a esposa explicou que nada havia assinado, então não havia dívidas. Ele não parava de pensar quem seria esse Padrinho, imaginava que era algum tio de sua mãe que no momento em que ela mais precisou não a amparou, foi expulsa de casa, pois estava grávida e solteira e após dar a luz  morreu com tuberculose, sozinha e pobre. Ele foi criado por uma família humilde que sempre o lembrava da fortuna de seus entes. Muito revoltado, nunca procurou contato com esses parentes e nem desejava nenhuma aproximação, sentia muita raiva pela situação de miséria que sua mãe falecera.
                                           Depois de um tempo, Juraci engravidou novamente e veio a nascer uma menina, que era o grande sonho do casal. Jocemar ficou feliz demais com a chegada da pequena, após o nascimento a esposa quis batizar a criança, mas o marido não permitiu, assim como não havia permitido batizar os outros três filhos. Ele não gostava de igreja.  Ela, mesmo contrariada resolveu acatar as ordens do marido.
                                             Passado alguns meses do nascimento de Maria, o menino voltou a aparecer no comércio do Jocemar, o homem assustou-se, pois o moleque estava igualzinho da primeira vez, não havia mudado nada nesses anos. Nem crescido. Fez a mesma pergunta de sempre e o comerciante reparou que ele tinha um pacote na mão, com certeza mais dinheiro. O homem foi logo falando indignado:
                                              -“ Que diacho é você menino”?
                                             Falou isso e pulou do balcão grudando- o pela camisa de botões. O menino assustado olhou-o e seus olhos ficaram vermelhos como brasa e apareceram dois chifres e o rosto transfigurou-se, surgindo o demônio em frente ao comerciante que o largou alarmado. Nisso vinha entrando a esposa com a pequena Maria nos braços. O capeta correu em direção à mulher e puxou o bebê e foi em direção à porta e falou:
                                            - “ Essa é minha, pelo pagamento do dinheiro que lhe dei”- E fugiu levando a filha do casal.
                                            Jocemar e Juraci ficaram atônitos e desesperados. A primeira decisão que tomaram foi  de irem à igreja e falar com o padre, que não acreditou no casal. Imaginou que eles tivessem feito alguma coisa com a filha e estavam tentando encobrir o mal. Era uma história irreal e o padre não simpatizava nem um pouco com aquele homem que não frequentava sua capela. Comunicou as autoridades o sumiço da pequena Maria e todos os moradores da cidade ficaram desconfiados dos pais da menina. Passando por uma situação muito difícil, o homem começou a procurar pela filha dia e noite sem cessar e a esposa passou a ir à igreja. Entrava quietinha e sentava num canto atrás e ali ficava entre penitências e rezas. Ninguém vinha falar com ela. Até que teve um dia que o padre se aproximou e disse para fazer uma novena e ela começou imediatamente.
                                            Nove dias depois estava a mulher sentada numa cadeira na porta da cozinha esperando a água do café ferver no fogão de lenha, era cinco horas da manhã e ainda estava escuro e passavam muitos trabalhadores indo para a roça. Todos apontavam e cochichavam e Juraci abaixava a cabeça triste, pois não tinha a solidariedade de ninguém. Seu marido estava revoltado e já não trabalhava, saia cedo de casa e passava todo o dia andando que nem louco e sem destino, dizendo que estava à procura da filha. Os alimentos já estavam acabando em sua casa e ela se fazia valer da horta e dos poucos animais que possuía na pequena chácara que residia.
                                             Foi quando ouviu alguns trabalhadores vindos em direção à sua casa gritando afoitos que acharam a menina. A mulher sentiu seu coração disparar e desceu os poucos degraus que davam para a rua e foi logo perguntando onde estava sua filha. Eles contaram que três homens e duas mulheres chegaram à roça, próximo dali e ouviram um choro e constataram a presença de uma menina entre o bambuzal, mas não conseguiram remover a planta. Quando Juraci chegou ao local, seu marido já estava lá e batia desesperado com um facão nos bambus, mas era em vão, não conseguia cortar. Começaram a chegar pessoas que ouviram a notícia e os homens se revezavam com facões, foices, facas, punhais, mas nada cortava os troncos. A criança chorava, mas não passava para o outro lado que estava bem fechado. Já se aproximava do meio dia e não conseguiam fazer nada. Maria adormeceu e os homens continuavam a tentativa em vão. Desesperada com a fome e sede da filha, pois não conseguiam passar nada pelo vão do bambu, a mulher pegou o facão e bateu em uma das hastes e percebeu que cortou, começou a cortar todos os troncos e chegou até a menina que acordou ao ser levantada  do solo pela mãe. A criança estava bem e foi acolhida por todos que ficaram impressionados com o que viram. Após o acontecido, as pessoas foram se dispersando, indo embora e Jocemar parou por um momento e pediu para que a mulher continuasse o trajeto. Ela não queria que ele voltasse, mas ele disse que precisava, pois isso não ia parar. Ao vê-lo se distanciando a esposa sentiu seu coração se apertando e teve a certeza que não o veria mais.
                                             Ao voltar ao bambuzal, avistou um homem muito bem arrumado de terno e chapéu dizendo que já o esperava, esse homem estava num cavalo e disse ser o Padrinho, mandou que ele subisse no animal e foram em direção a um lugar que Jocemar não imaginava onde era. Passaram horas galopando e o comerciante começou a ficar com medo. Começou a rezar bem baixinho e o homem bem vestido, que até então estava em silêncio, virou o rosto para trás e disse bravo:
                                             -“ Você quer parar de cochichar no meu cangote”!
                                             Disse isso e começou a correr mais com o cavalo, o comerciante mais assustado ainda continuou a reza, só que dessa vez baixinho, quase imperceptível. O homem irritado gritou com ele:
                                              -“ Quer parar de cochichar no meu cangote”!
                                               Jocemar,  tremendo de medo, percebeu que estavam rodando sempre no mesmo lugar e já era noite, estava frio e escuro, começou então a rezar só no pensamento, o homem enfezado, olhou para trás com os olhos em brasa e o rosto totalmente desfigurado e disse aos berros:
                                                - “Eu já disse para você parar de cochichar no meu cangote”!
                                                Disse isso e o cavalo saltou por cima do muro do cemitério da cidade. E ao ver aquele animal saltando tão alto, o comerciante gritou:
                                                  - “Valha-me Nossa Senhora!”
                                                  Ao dizer isso, ele caiu para o lado de fora do muro e viu um monte de demônios o aguardando, começaram a puxá-lo para dentro do portão, ele assustado e meio entorpecido por ter batido a cabeça, continuou rezando no pensamento e os demônios começaram a queimar as mãos e não conseguiam segurar nele, nisso veio um bicho horrível com pés de bode e grandes chifres, dizendo que veio pegar o que era dele, sua alma. Mas Jocemar disse nunca ter vendido sua alma, nunca pediu dinheiro ou aceitou, simplesmente ele deixava o dinheiro lá por que queria. Nisso o demônio olhou para o capetinha que transformava no menino e esse lhe disse:
                                                   - “Não olhe assim para mim! Eu não fiz nada!”
                                                   O demônio ficou tão furioso que grudou o capetinha  pelo chifre e o levou a pontapés para dentro do cemitério. Jocemar ficou ali, lívido e sozinho.