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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

MISTÉRIO XXIII - O SINISTRO CASO DO MAL ENTENDIDO.





                                     Esse caso aconteceu no final do século XIX, numa cidadezinha de Minas Gerais, um lugar tranquilo e de poucos moradores. Jocemar era um homem trabalhador e tinha, com muita luta, conquistado um pequeno comércio, mas não ia bem. Havia contraído  dívidas e andava preocupado. Estava no balcão, em pé, com o cotovelo apoiado e a mão no queixo. Pensativo, analisava um meio de sair daquela situação. Não tinha nenhum cliente naquele momento, eles estavam escassos desde que surgiu um concorrente na rua de cima, que trazia novidades e produtos melhores da capital. Sem recursos, o comerciante via-se cada dia mais às mínguas. Quando foi surpreendido por um menino:
                                   - “Moço, Padim perguntô si o sinhô qué enricá?
                                    -“ Quê”? – perguntou o homem surpreso com aquele menino de calças curtas e cabelos negros.
                                   - “Padim perguntô si o sinhô que enricá”?
                                   - “Padim? Que Padim? Por um acaso é algum daqueles unhas de fome dos parentes de mãinha?
                                    - “Sei não sinhô, sei somente que ele mandô perguntá”.
                                     - “Quero dinheiro dessa corja não. Se eu tivé que enricá vai ser por meu esforço. Faça-me o favor de levá esse recado a ele”
                                      O moleque saiu correndo, mas antes deixou um pacote no balcão. Quando Jocemar abriu e viu a quantia de dinheiro que havia, correu atrás dele que gritou ao longe que o dinheiro era para ele, dado pelo “ Padim”. Ao chegar à casa, o comerciante contou para a esposa Juraci o ocorrido, ela sugeriu que usasse para pagar as dívidas que com certeza era de algum tio ou irmão de sua mãe, arrependidos pela injustiça do passado.
                                     Após um ano, o comércio de Jocemar já estava melhor, mas ele não estava satisfeito diante do crescimento do concorrente que havia ampliado as instalações, o homem estava se corroendo de inveja. Num final de tarde chuvoso e frio, não havia mais ninguém nas ruas e o comerciante pensava em fechar as portas e ir para casa, no aconchego de seu lar com sua mulher e seus três filhos. Quando se preparava para pegar o guarda chuva, ouviu uma voz atrás do balcão.
                                       -“ Moço, Padim perguntô si o sinhô qué enricá?
                                        - “Cê di novo aqui moleque, quem é esse Padim? Ninguém dá dinheiro pá ninguém não, mi exprica essa história”...
                                        - “Sei di nada não sinhô, sei somente qui Padim perguntô si o sinhô qué enricá”.
                                        - “Pois diga a esse Padim que quero falá com ele”
                                         - “Ele vem não sinhô, ele só vem si o sinhô repondê qui qué enricá”
                                         - “Pois eu não quero! Diga a ele que eu não preciso do dinheiro dele, quando mãinha mais precisô eles não quiseram ajudá. Diga que agradeci pelo dinheiro, vou pagá o que ele me emprestô, não quero nada dessa gente”.
                                          O menino virou as costas e saiu correndo, mas antes deixou um pequeno embrulho sobre o balcão. Quando o comerciante viu o pacote, correu em direção a ele para devolver, mas não houve mais tempo.
                                          Contou para Juraci, que ficou feliz, dizendo que gostaria de comprar umas roupas para os filhos, não pensou duas vezes em gastar. O marido não quis que usasse o dinheiro, guardou-o por dois meses. Depois, diante das necessidades, resolveu usá-lo. Mas ficou preocupado se viessem lhe cobrar essa quantia. Mas a esposa explicou que nada havia assinado, então não havia dívidas. Ele não parava de pensar quem seria esse Padrinho, imaginava que era algum tio de sua mãe que no momento em que ela mais precisou não a amparou, foi expulsa de casa, pois estava grávida e solteira e após dar a luz  morreu com tuberculose, sozinha e pobre. Ele foi criado por uma família humilde que sempre o lembrava da fortuna de seus entes. Muito revoltado, nunca procurou contato com esses parentes e nem desejava nenhuma aproximação, sentia muita raiva pela situação de miséria que sua mãe falecera.
                                           Depois de um tempo, Juraci engravidou novamente e veio a nascer uma menina, que era o grande sonho do casal. Jocemar ficou feliz demais com a chegada da pequena, após o nascimento a esposa quis batizar a criança, mas o marido não permitiu, assim como não havia permitido batizar os outros três filhos. Ele não gostava de igreja.  Ela, mesmo contrariada resolveu acatar as ordens do marido.
                                             Passado alguns meses do nascimento de Maria, o menino voltou a aparecer no comércio do Jocemar, o homem assustou-se, pois o moleque estava igualzinho da primeira vez, não havia mudado nada nesses anos. Nem crescido. Fez a mesma pergunta de sempre e o comerciante reparou que ele tinha um pacote na mão, com certeza mais dinheiro. O homem foi logo falando indignado:
                                              -“ Que diacho é você menino”?
                                             Falou isso e pulou do balcão grudando- o pela camisa de botões. O menino assustado olhou-o e seus olhos ficaram vermelhos como brasa e apareceram dois chifres e o rosto transfigurou-se, surgindo o demônio em frente ao comerciante que o largou alarmado. Nisso vinha entrando a esposa com a pequena Maria nos braços. O capeta correu em direção à mulher e puxou o bebê e foi em direção à porta e falou:
                                            - “ Essa é minha, pelo pagamento do dinheiro que lhe dei”- E fugiu levando a filha do casal.
                                            Jocemar e Juraci ficaram atônitos e desesperados. A primeira decisão que tomaram foi  de irem à igreja e falar com o padre, que não acreditou no casal. Imaginou que eles tivessem feito alguma coisa com a filha e estavam tentando encobrir o mal. Era uma história irreal e o padre não simpatizava nem um pouco com aquele homem que não frequentava sua capela. Comunicou as autoridades o sumiço da pequena Maria e todos os moradores da cidade ficaram desconfiados dos pais da menina. Passando por uma situação muito difícil, o homem começou a procurar pela filha dia e noite sem cessar e a esposa passou a ir à igreja. Entrava quietinha e sentava num canto atrás e ali ficava entre penitências e rezas. Ninguém vinha falar com ela. Até que teve um dia que o padre se aproximou e disse para fazer uma novena e ela começou imediatamente.
                                            Nove dias depois estava a mulher sentada numa cadeira na porta da cozinha esperando a água do café ferver no fogão de lenha, era cinco horas da manhã e ainda estava escuro e passavam muitos trabalhadores indo para a roça. Todos apontavam e cochichavam e Juraci abaixava a cabeça triste, pois não tinha a solidariedade de ninguém. Seu marido estava revoltado e já não trabalhava, saia cedo de casa e passava todo o dia andando que nem louco e sem destino, dizendo que estava à procura da filha. Os alimentos já estavam acabando em sua casa e ela se fazia valer da horta e dos poucos animais que possuía na pequena chácara que residia.
                                             Foi quando ouviu alguns trabalhadores vindos em direção à sua casa gritando afoitos que acharam a menina. A mulher sentiu seu coração disparar e desceu os poucos degraus que davam para a rua e foi logo perguntando onde estava sua filha. Eles contaram que três homens e duas mulheres chegaram à roça, próximo dali e ouviram um choro e constataram a presença de uma menina entre o bambuzal, mas não conseguiram remover a planta. Quando Juraci chegou ao local, seu marido já estava lá e batia desesperado com um facão nos bambus, mas era em vão, não conseguia cortar. Começaram a chegar pessoas que ouviram a notícia e os homens se revezavam com facões, foices, facas, punhais, mas nada cortava os troncos. A criança chorava, mas não passava para o outro lado que estava bem fechado. Já se aproximava do meio dia e não conseguiam fazer nada. Maria adormeceu e os homens continuavam a tentativa em vão. Desesperada com a fome e sede da filha, pois não conseguiam passar nada pelo vão do bambu, a mulher pegou o facão e bateu em uma das hastes e percebeu que cortou, começou a cortar todos os troncos e chegou até a menina que acordou ao ser levantada  do solo pela mãe. A criança estava bem e foi acolhida por todos que ficaram impressionados com o que viram. Após o acontecido, as pessoas foram se dispersando, indo embora e Jocemar parou por um momento e pediu para que a mulher continuasse o trajeto. Ela não queria que ele voltasse, mas ele disse que precisava, pois isso não ia parar. Ao vê-lo se distanciando a esposa sentiu seu coração se apertando e teve a certeza que não o veria mais.
                                             Ao voltar ao bambuzal, avistou um homem muito bem arrumado de terno e chapéu dizendo que já o esperava, esse homem estava num cavalo e disse ser o Padrinho, mandou que ele subisse no animal e foram em direção a um lugar que Jocemar não imaginava onde era. Passaram horas galopando e o comerciante começou a ficar com medo. Começou a rezar bem baixinho e o homem bem vestido, que até então estava em silêncio, virou o rosto para trás e disse bravo:
                                             -“ Você quer parar de cochichar no meu cangote”!
                                             Disse isso e começou a correr mais com o cavalo, o comerciante mais assustado ainda continuou a reza, só que dessa vez baixinho, quase imperceptível. O homem irritado gritou com ele:
                                              -“ Quer parar de cochichar no meu cangote”!
                                               Jocemar,  tremendo de medo, percebeu que estavam rodando sempre no mesmo lugar e já era noite, estava frio e escuro, começou então a rezar só no pensamento, o homem enfezado, olhou para trás com os olhos em brasa e o rosto totalmente desfigurado e disse aos berros:
                                                - “Eu já disse para você parar de cochichar no meu cangote”!
                                                Disse isso e o cavalo saltou por cima do muro do cemitério da cidade. E ao ver aquele animal saltando tão alto, o comerciante gritou:
                                                  - “Valha-me Nossa Senhora!”
                                                  Ao dizer isso, ele caiu para o lado de fora do muro e viu um monte de demônios o aguardando, começaram a puxá-lo para dentro do portão, ele assustado e meio entorpecido por ter batido a cabeça, continuou rezando no pensamento e os demônios começaram a queimar as mãos e não conseguiam segurar nele, nisso veio um bicho horrível com pés de bode e grandes chifres, dizendo que veio pegar o que era dele, sua alma. Mas Jocemar disse nunca ter vendido sua alma, nunca pediu dinheiro ou aceitou, simplesmente ele deixava o dinheiro lá por que queria. Nisso o demônio olhou para o capetinha que transformava no menino e esse lhe disse:
                                                   - “Não olhe assim para mim! Eu não fiz nada!”
                                                   O demônio ficou tão furioso que grudou o capetinha  pelo chifre e o levou a pontapés para dentro do cemitério. Jocemar ficou ali, lívido e sozinho.




     
                                                   


                                           
 
                                               
                                         


 

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